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Sobre pontes e escadas – como fazer o conhecimento avançar?

Pontes são elementos concretos de ligação entre dois lados, inicialmente isolados. São elementos de acessibilidade, que permitem superar barreiras de distância. Se só existe uma ponte, pouco intercâmbio será possível. Com mais pontes, mais intercâmbios e mais interação.

E uma escada? Outro elemento de ligação e de acessibilidade, não para acessar lados distintos, mas patamares distintos, dentro do mesmo lado. Um patamar mais elevado é acessível a partir do patamar que o precedeu. E vice-versa.

e_dai.jpgDaí que, em outra escala, mais abstrata, em uma escala nem sequer física, o pensamento e seus derivados (cultura, informação, aprendizagem, conhecimento, memória, etc.), também carecem de “pontes” e “escadas” para se intercambiarem.

Tendemos a permanecer juntos com pessoas por quem sentimos afinidades. Os semelhantes se atraem. A Lei da Atração impera. Nossas escolhas afetivas se baseiam fortemente nesse componente. Por isso é tão difícil compreender aquilo que difere do nosso mundo mental, entender as diferenças, porque estão distantes “espacialmente” (em outro lado) e “topologicamente” (em outro patamar). É nesse sentido que metaforicamente só pode haver intercâmbio cultural através de “pontes” e “escadas” no pensamento.

O grande desafio (a pedra no sapato) em todos os tempos sempre foi compreender a questão da mente humana, abordada de forma diferente entre diversas culturas e sub-culturas (culturas dentro de culturas). Quem somos nós afinal, qual o significado da vida, da existência, o que é a consciência, qual a natureza da inteligência, como se dá a evolução, mais até do que especular sobre a gênese de tudo e tal. Há quem diga que foi em sete dias…

Atualmente, vivencia-se um dilema na ciência, super-hiper-ultra-especializada, que a despeito de seu grande desenvolvimento e sofisticação técnica, as Big Sciences deixam muito a desejar quando o assunto é a mente humana, pois carecem da visão integradora, à luz de um paradigma igualmente integrador, que possibilite abarcar então esta “nova” realidade.

Relativizar a separação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível, um dos pilares do Positivismo, base do paradigma atual, é assunto comburente em certos círculos (e cátedras). Conceito esse válido e aceito (apesar das restrições) para estudar realidades concretas, torna-se frágil quando o objeto a ser estudado é o próprio conhecimento, a própria consciência. Ao ignorar o que sinto, como poderei estudar o que penso? Eis um fato da vida.

tem_logica.jpgOu será que deveríamos nos contentar com uma ciência sem consciência, uma barreira de jamais podermos estudar metodicamente e criteriosamente as realidades subjetivas que produzimos? Ou o que seria pior, desconsiderá-las só porque são subjetivas e não, válidas universalmente.

Do outro lado da ciência fragmentada, ou da ponte, como queiram, estão as chamadas Humanidades, cuja visão tradicionalmente é integradora. Nesta visão, o ser humano não é só máquina, como revelou a ciência. Genes, células, órgãos e tecidos estão lá, mas sob controle de um meta-elemento que os anima (alma, que vem do latim “ânima”).

Pois bem, eis uma difícil questão: a compreensão meta-biológica da vida, o sentido da existência em um planeta refém da própria cultura autofágica da maioria de seus hóspedes, depende do paradigma que se usa. Paradigmas são modelos mentais, consensuais e, ainda que durem milênios, são finitos. A partir de uma revolução paradigmática em diante (no sentido Khuniano), sustentar o velho paradigma é que se tornaria uma anomalia.

Em períodos de Ruptura Paradigmática iminente, como o que vivemos atualmente, inaugurado no início do Séc. XIX com o fim da ilusão materialista como realidade última, quanto mais se precisa de intercâmbio, mais evidenciam-se duas polaridades de pensamento: o conservadorismo e o vanguardismo.

O conservador vê nas “pontes” uma ameaça ao status a que se acostumou, e trabalha para destruí-las. Vê imposturas em tudo que é canto e, com medo de mudar, sobe e desce a mesma “escada”, especializando-se em cada um dos patamares, desde que se mantenha preso à tradição. Só de pensar em ter que rever todas as suas teorias, todo seu saber e, por extensão, todas a história humana, a luz de novas teorias, prefere mesmo que tudo continue como está.

Já o vanguardista, em geral, cansado de subir e descer a mesma “escada”, adora construir “pontes”, que permitam questionar sua cultura natal, seu saber local e sua filosofia herdada porque sabe que, oxigenando suas idéias, contribui concretamente para o avanço do conhecimento integral. Não se convence facilmente com a noção de que sua cultura é a melhor, e “ganha o mundo” para ver o que mais encontra.

Para mim, a transdisciplinaridade é o grande ensaio, seria o principal movimento capaz de reunir os vanguardistas, com a força de ser uma “escada” e uma “ponte” para a transculturalidade e a cidadania global.

Eis, de volta, a questão central do post (e do próprio blog): se o avanço do conhecimento se dá pelo (auto)conhecimento, facilitado pelo vanguardismo, porque o vanguardista ainda precisa encarar a condição de andar na contra-mão, em contra-fluxo, sempre visto com olhos de desconfiança?

E mais umas perguntinhas inquietantes: Por que não se poderia conceber uma sociedade aberta à mudanças? E por que ao tocar em assuntos polêmicos logo aparece alguém para discriminar e chamar de herege, sonhador, doidivanas, sincrético, utópico e tal?

dica.JPGPara os que nunca se cansam de aprender, eis alguns movimentos interculturais em andamento. Identifica-se com algum?

IASB – Centro de Intercâmbio Acadêmico Sino-Brasileiro – com a missão de realizar intercâmbios culturais e acadêmicos entre a China e a América Latina.

Mind and Life Institute – Trabalho em colaboração e parceria em pesquisas entre a Ciência Moderna e o Budismo.

ISSSEEM – Science And Energy Medicine – Força tarefa de “cientistas com inclinação mística” e “místicos com inclinação científica”, conforme anunciado no site.


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