Ocio Criativo De Masi

Ócio Criativo, por Domenico De Masi

Domenico De Masi, sociólogo italiano, sabe provocar esperança e confusão na mesma medida. É um dos principais interlocutores para compreender a era pós-industrial e as mudanças a caminho.

A teoria do Ócio Criativo completa 15 anos

Em 2000, De Masi lança seu bestseller “O Ócio Criativo”, onde analisou severas mudanças em curso no mundo do trabalho — redução das jornadas de trabalho, flexibilização do tempo livre –, onde traz sua visão da sociedade pós-industrial. Desde então, tem se dedicado à análise da organização da cultura de trabalho criativo na vida contemporânea e a estudos comparativos sobre a herança de diferentes modelos de vida no mundo –do indiano, chinês ou japonês, ao muçulmano, judaico, católico ou protestante.

Vamos combinar que as dimensões do trabalho moderno são múltiplas, certo? Mas a sociedade industrial trouxe para a vida adulta uma perspectiva de dedicação exclusiva ao labor. Um trabalho de subordinação, que é repetitivo, cansativo, chato, reduz-se a uma escravidão e, por isso, um trabalhador o quer o menos possível, pelo menor número de anos possível. Mas se, em vez disso, for uma atividade intelectual e criativa, que corresponde à nossa vocação e ao nosso profissionalismo, então ocupa nossa inteligência e satisfaz nossas necessidades de autorrealização.

Difícil falar em trabalho ideal. Eu prefiro falar em descobrir o sentido do trabalho naquilo que você faz, seja para sobreviver ou crescer. O que se pode afirmar é: ao convergir intencionamente o trabalho com a aprendizagem e o lazer, você transforma algo que era chato em algo criativo e motivador.

São duas as chaves para entender o ócio criativo:

  1. compreender primeiro que a mudança no mundo do trabalho é inexorável. O pós-industrial chegou, assim como a internet e a explosão demográfica. Para que todos possam se ocupar, todos trabalharemos menos e nos conectaremos mais.
  2. libertar-se do medo da concorrência, da obrigação de trabalhar mais, para fazer mais. A criatividade só funciona com o tempo livre. Você tem que estudar, se comunicar, explorar possibilidades para criar algo de valor. A vida robotizada, sem tempo livre, é ambiente inóspito para a inovação.

Caminhos para uma Economia Criativa

Hoje grande parte da sociedade dedica-se a atividades paralelas ao emprego, e isso é uma abertura para a economia criativa. Os mais jovens — a geração digital, a geração Y, os millennials — tem uma importância nessa redefinição de papeis e nas novas práticas culturais. A Internet funciona como estimulo constante. Nunca se empreendeu tanto quanto na época atual. Essa criatividade canalizada, esse poder de unir pessoas e realizar ideias tem tudo a ver com um bom “ócio criativo”.

As portas do futuro e do crescimento vão além do skill mediano e do job básico. Se o saber técnico pode abrir alguma porta para a colocação profissional, aposte com vontade na inteligência intrapessoal e interpessoal, porque a revolução está no network. Aprender a ser, aprender a conviver, não apenas aprender a fazer.

O modelo educacional rígido, disciplinador, dedicado aos saberes técnicos, herança da sociedade industrial está em crise. A mudança de paradigma na educação vem para conciliar a formação com as necessidades outras, tais como: atividades lúdicas, a criatividade, as interações, a expansão do autoconhecimento, a amizade, o amor e toda a gama de fatores que nos tornam melhores seres humanos.

O futuro chegou: modelos de vida para uma sociedade desorientada

Se são as empresas as grandes fiadoras desse novo futuro, cabe perguntar: o ócio criativo chegou nas empresas? Na prática, a teoria pode ser outra. Deveriam ser tão ágeis para mudar sua cultura quanto o são para inovar em produtos e soluções. A produção de ideias precisa de autonomia e de liberdade, mas as empresas ainda são burocráticas, temem o teletrabalho, ainda são concentradoras, mantém faixas salariais absurdamente desiguais, ainda estimulam a competitividade mesmo pregando colaboração.

E dos governos, o que esperar? Para o Brasil, algum recado? “Depois de copiar o modelo europeu por 450 anos e o modelo americano por 50, agora que ambos estão em crise e ainda não há um novo para substituí-lo, chegou a hora de o Brasil propor um modelo para o mundo”, diz De Masi.


Fontes: FSP, Karreira

Alexandre Mello

digital por formação │ pós-graduado em educação a distância │ curador de acervo audiovisual │ produtor executivo │ documentarista │ autor │ conteudista

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