O Proposito Da Vida

O outro lado da educação fora da escola

Post Series: Unschooling, vamos tratar do assunto?

A solução para a crise na educação pode estar fora da escola. Há um número crescente de experimentos pessoais e sociais que sinalizam para um processo de autoeducação muito mais motivador, porque tem conexão imediata com o interesse do aluno, e muito mais eficaz, porque centrados em aprendizagem prática.

Educação fora da escola – depoimentos

Ana Thomaz – a bailarina

Ana se identificou com a maternagem desde criança. Queria muito ser mãe. Das aulas de biologia se identificou com a genética, onde o “A” e o “a” se combinavam na hereditariedade, e sonhava que se o marido fosse de tal jeito, o filho teria tal característica. Queria ser bailarina, mas logo entendeu que a escola pouco tinha a ver com inspiração. A escola oferecia saberes prontos, mas não preparava para lidar com as incertezas, para o sentido da vida.

Já adulta, diante de vários desafios, da maternidade, da competitividade no trabalho, dos problemas da convivência compulsória e intensa com os colegas de balet, viajando continuamente com os espetáculos, se perguntava porque sentia-se tão despreparada para fatos concretos da vida adulta. E a suspeita recaiu sobre a escola.

O sistema educacional dominante vende um produto que o cliente não quer receber e não pergunta a opinião do cliente. E o cliente é a criança. Miguel Nicolelis, neurocientista.

Dale J. Stephens – o empreendedor

Aos 12 anos, já estava fora da escola para “começar a aprender”, lembra o americano de São Francisco, Califórnia. Recebeu apoio dos familiares e iniciou uma jornada sem volta – especialmente aos bancos escolares, exceto por uma breve passagem universitária que não durou um semestre. Autodidata convicto, tem dois fortes argumentos: o custo muito elevado da educação privada universitária (nos EUA, a dívida estudantil média é de U$ 29 mil) e a baixa qualidade do ensino frente à expectativa dos formandos.

Em 2011, lançou o livro “Hacking Your Education” (Hackeando a educação), onde entrevistou 40 outras pessoas em suas experiências fora da escola. Desde os 21 anos, dirige o UnCollege, programa que ajuda jovens a desenvolverem sua capacidade de autoaprendizado de maneira livre e independente. Sua ideia é reunir autodidatas e mentores na mesma comunidade, e deixar o aprendizado fluir guiado pela curiosidade e pelas afinidades. Você acha que ele se inspirou na cultura do Vale do Silício? Bingo!

A escola que seleciona só os melhores para a Universidade, que forma a futura elite dominante, é um sistema de exclusão, e não de inclusão. Jordi Mateu, Red Educación Libre.

Logan LaPlante – o sonhador

Aos 9 anos, já não ia à escola e aos 13, já falava com desenvoltura. O que ele deseja para a vida adulta? Continuar sendo tão feliz quanto é como adolescente. Mas isso não é wishiful thinking, o garoto é bem maduro e precoce, com uma lógica estarrecedora.

Sabe que seus amigos que estão nos colégios querem ser saudáveis, sentirem-se felizes, seguros, não sofrerem bullying, sentirem que são amados do jeito que são. E os adultos que perguntam “o que você vai ser quando crescer” assumem que felicidade é ir a escola, ter uma profissão, casar, filhos e (…) boom! Será que assim todos serão feliz?

E qual o problema disso, argumenta o inteligente garoto: não estamos sendo preparados para sermos felizes nem saudáveis na escola. Se Educação é importante, então porque vida saudável e felicidade não seriam? E menciona os 8 passos simples de Roger Walsh, pesquisador, mapeados como a ciência da felicidade e da saúde, que ele estuda, segue e recomenda.

Destaca, também, a palestra “Escolas Matam a Criatividade“, a mais popular de todos os tempos na série de vídeos TED, proferida por Sir Ken Robinson em 2006. A questão central é por que a criatividade não tem o mesmo status que a alfabetização? Os milhões de acessos do vídeo ajudam jovens como ele e famílias mundo afora a compreenderem melhor a revolução da educação, dentro e fora das escolas.

A aprendizagem acontece em qualquer momento, e raramente acontece durante a aula. José Pacheco, Escola da Ponte.

Educação fora da escola – aculturação

Se pensarmos com a mente de Foucault, verificaremos na educação fora da escola uma resistência à imposição de práticas culturais milenares, sendo a Escola vista como Leviatã, a instituição que representa o poder constituído, o poder do estado.

Mas se pensarmos com a mente de um Antropólogo, veremos uma aculturação que nasce das influências mútuas no contato entre grupos com culturas originárias diferentes, sempre com a possibilidade de hibridizar e reoxigenar a matriz cultural dominante. Isso é verdadeiro para tribos isoladas no interior da Amazônia, e verdadeiro também para a “tribo” da educação fora da escola.


Depoimentos:
Ana Thomaz e a Desescolarização;
O que aprendi com a desescolarização, por Ana Thomaz;
Dale J. Stephens (legendado), entrevista UFM.edu;
‘Nem todos precisam da escola’, diz jovem que criou programa para autodidatas, VEJA, 13.7.2013.
UnCollege chega ao Brasil para ‘hackear’ a educação, Porvir, 21.7.2014;
Dale Stephens (english), at TEDxTaipei 2012;
Hackschooling makes me happy (legendado), por Logan LaPlante.

Fontes:
Michel Foucault, um crítico da instituição escolar
, por Márcio Ferrari. Revista Nova Escola.
Aculturação, por Lucas de Oliveira Rodrigues. Mundo Educação.

Documentários:
La Educación Prohibida, Argentina, 2012. Entrevista com diretor Germán Doin.
Quando sinto que já sei, Brasil, 2014. Entrevista com diretor Antonio Sagrado.

Comunidades:
Reevo – mapeamento coletivo que reflete as diversas e múltiplas iniciativas de educação alternativa em todo o mundo. O projeto foi desenvolvido pela mesma equipe do documentário La Educación Prohibida.

Alexandre Mello

Multitarefas │ digital por formação │ pós-graduado por convicção │ empreendedor social │ autor │ conteudista

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