Midia Digital

Internet e a crise na velha mídia

Em 20 anos, a velha mídia parou de rechaçar a Internet, e o olhar de desconfiança tornou-se abraço efusivo. O que era ameaça, virou tábua de salvação. Como assim?

Internet – a nova mídia

A Web é a mídia do século XXI. É bidirecional, é responsiva, é interativa, é onipresente, é hipertextual, é audiovisual, é enfim a grande revolução. Os atrativos são enormes, e de fato causou frisson ao vir a público, em meados da ultima década do século XX.

A besta fera, indomada, uma modernidade para a qual a maioria ainda não se instrumentalizara, mostrou-se ameaçadora na bolha especulativa das Ponto.com (ano 2000), que freou o impeto empreendedor de momento, deixando para aquela geração a sensação ruim de que a revolução digital teria que ser “adiada”. Pouco tempo depois, a Internet ainda trouxe crise à indústria de música, à Hollywood, aos jornais e a tudo que se propusesse a empacotar informações, memórias e sentimentos.

Eis que a Internet ressurge em todo seu esplendor nos bastidores dos arranjos locais após crise econômica de 2008, nos movimentos Occupy, na primavera árabe e no crescimento da conscientização para a sustentabilidade. O mundo está ávido por interação e soluções criativas. A Internet é a mídia interativa por excelência, e permite organização social sem precedentes.

A crise de identidade na velha mídia

O fator-chave para a velha mídia foi constatar receitas e público debandando, o que a fez reagir. Se a década passada foi marcada pelas incertezas, novos gestores e profissionais formados nas melhores Universidades, que viam-se a si próprios como profissionais de setores, agora tentam se reinventar.

A transição da velha mídia vai exigir mais polivalência e menos fragmentação, o que confronta as cátedras nas Universidades e Faculdades de Comunicação, onde cinema é cinema, tv é tv, rádio é rádio.

Cinco mudanças trazidas pela internet

1- Consumidores

Tornam-se também produtores, aumentando a oferta e o senso crítico.

2- Produtores

O mercado do audiovisual no país tem crescido regularmente com o fomento direto e indireto, o boom nas assinaturas de TV Paga e a garantia das cotas para o conteúdo nacional (lei 12.485/11), oportunizando que novas produtoras apareçam. Nos cálculos da associação de produtores independentes (ABPI), são 450 produtoras ativas.

3- Gestores

As rádios, canais e programadoras voltam-se para a gestão de conteúdos, múltiplas plataformas e não linearidade. Os conteúdos fluem através de janelas transmídia. Boa parte da produção pode ser terceirizada com sucesso.

4- Cadeia de produção do audiovisual

Lições aprendidas sobre as políticas afirmativas que abriram caminhos indiscutíveis, e que vislumbram um futuro promissor de parcerias dos canais / operadoras com os produtores independentes e as co-produções internacionais. É o que se vê no RioContentMarketing e muitos outros fóruns do setor. Ganha-ganha.

5- Anunciantes

Tem completo controle e informações para anunciar por nicho, por tema, por região, etc, e pagar por cliques efetivos, o que era impensado na TV / Cinema onde o pacote publicitário é negociado por média de audiência, o conceito de impacto e não de conversão direta, em ações de marketing.

O profissional de mídia na era digital

Para atender uma enorme base de usuários, o profissional sabe que a escala tem de ser enorme. Para qualquer emissora, canal, operadora com proposta regional / nacional, além de concessões e outorgas, há enormes custos, desafios técnicos e tecnológicos imensos.

Apesar da penetração da TV aberta em praticamente 100% dos lares brasileiros, a verdade é que a perda de audiência desse tipo de transmissão reflete o sinal dos tempos. Hoje, a Internet é uma mídia que oferece a multiplicação dessa escala, oportunidade para canais qualificados e uma relação de n para n com um público antenado. E isso é bom para os canais, certo?

O novo conceito “everyone, everywhere” implica que não se vai falar com todos ao mesmo tempo, tipo novela das oito, mas conteúdos vão circular em vários meios, gêneros e formatos, e atingir públicos diferentes, em momentos diferentes. Se a radiofusão consagrou o broadcast, a Internet pode consagrar o socialcast.

A velha mídia e o novo ambiente digital têm pontes cognitivas. As relações de conteúdo e mercadológicas não se esgotam nos veículos. Cabe ao profissional saber fazer esta leitura para não condenar-se a si mesmo e aos seus projetos à obsolescência precoce.


Fontes:
Programa Ver TV, da TV Brasil: TV e Internet; Redução na audiência da tv aberta

Alexandre Mello

digital por formação │ pós-graduado em educação a distância │ curador de acervo audiovisual │ produtor executivo │ documentarista │ autor │ conteudista

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