Memoria Digital

Escriba consciente e a memória digital

Você que é escriba sabe usar a nova cultura online e a memória digital a seu favor?

Escriba criativo vs escriba recreativo

No mundo das formigas-digitais, teu perfil online te acompanha nas redes onde interage, nos formigueiros-públicos onde se articula. Na prática, você é o que você escreve. As pessoas te entendem pelo que você compartilha. Você se diferencia pelo que produz, de útil, de agradável, de interessante.

Na internet, não existe a rigor os sem perfil. O que existe são os perfis dos desleixados, que atraem para si o karma dos desocupados — vivem de passatempo, de escrever o óbvio, etc. O que caracteriza o uso recreativo é ser improdutivo. Por isso, o entretenimento não é recreativo, mas criativo e produtivo.

Escriba frouxo vs escriba livre

A escrita frouxa e sem direção — um emaranhado de abstrações criativas — podem fazer sentido na literatura, na poesia, mas pouco acrescentam à escrita objetiva. Na roteirização, afora o universo da ficção, são tão inúteis quanto propaganda política ou corrente de spam.

A escrita livre — no sentido de sem censura, não no sentido de irresponsável — já é o oposto. Se ninguém edita o que você escreve, nenhum editor chato te corta as asas, então não há imposição de pautas e você assume o bônus e o ônus da liberdade de expressão.

Se há algo que esta geração digital tem que aprender é conviver com toda esta liberdade, que só pode encontrar limites na autoconsciência, na prudência. O karma da postagem impensada de hoje é o arrependimento no comentário de amanhã. Cabe perguntar: a ética é uma teoria ou uma prática para você?

Escriba responsável vs escriba embromação

É fácil diferenciar o escriba revelação do escriba falastrão, o jornalismo concessão do jornalismo cidadão, a realidade fabricada da realidade vivenciada, reflexiva. Em qualquer tempo e época, os autores — não necessariamente os protagonistas — são sempre os fazedores da história. Tudo o mais são intermediários.

Sendo a internet uma extensão da comunicação humana, as novas relações já estão em vigor, ressaltando como “capital” a rede de contatos e o networking, importantes e estratégicos na vida profissional. Relações não comerciais são um ponto interessante dessa cultura, capaz de reunir pessoas afins, projetos afins.

É relevante que essa comunicação seja policêntrica, desterritorializada, formadora de consciência coletiva, uma memória digital gigante e acessível. Bobo é o que combate a tecnologia, querendo atribuir responsabilidade ao meio mais do que aos usuários.

Cuidado com a Síndrome de Zélia!

Concluo com um exemplo da história. Brasil, 1990. Zélia Cardoso de Mello — a infame ex-ministra do confisco –, era a economista responsável direta pela dosagem do remédio econômico que entrou para a memória social como Plano Collor. Saudada pelos pares como artífice da contenção artificial da hiperinflação galopante da época (84% ao mês), raspou toda conta bancária e aplicação financeira que excedesse 50 mil cruzados novos e deixou de ressaca monetária os pacientes do Hospital-Brasil.

Foi processada, absolvida, e acabou indo morar fora do país, onde amargou perdas de oportunidades profissionais. Segundo confidenciou em entrevista, o Google e sua implacável memória digital lembra a todos as referências e os processos criminais em que se envolvera. O repórter assim resumiu o caso: 14 meses de um brilho intenso e fugaz, seguidos por 14 anos de uma longa e penosa espera.

Que o efeito didático da síndrome de Zélia fique como alerta às novas gerações: imagem destroçada; amargo autoexílio; poder inconsequente; radicalismo; arrogância; fins justificando os meios; responsabilidade que não estava a altura da liberdade; atitude desumana; inteligência econômica sem inteligência emocional.

Vai haver a volta por cima? Ela possivelmente se perdoará, mas a Internet jamais a esquecerá.


Inspiração: IstoÉ Dinheiro

Alexandre Mello

digital por formação │ pós-graduado em educação a distância │ curador de acervo audiovisual │ produtor executivo │ documentarista │ autor │ conteudista

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