Cidadania E Estado Emancipador

Cidadania e a força das comunidades

A próxima onda para a sociedade civil organizada é a cidadania ativa. Uma síntese provocativa e produtiva para o constructo “cidadania”, com dez aspectos em destaque.

1- Cidadania e participação

Quadros de jornalismo cidadão movimentam o jornalismo experimental. Para registrar um certo barulho de ônibus saindo da garagem na madrugada, nas proximidades de áreas residenciais, o cidadão vai lá, clica, registra seu olhar e envia para as emissoras. Uma delas vai ao local de madrugada e faz a reportagem completa.

Eis o repórter cidadão, que ainda dá a entrevista, argumenta com firmeza e explica direitinho o motivo da denúncia. Alguém duvida que vale a pena esse tipo de participação de cidadania ativa?

2- Cidadania e observação

Alberto Dines, no texto O Olhar Cidadão, comemorativo dos 5 anos do Observatório de Imprensa, refere-se ao ato de observar como uma forma de intervir. “Ao observar, pensamos, ao pensar, existimos. E ao existir, atuamos. O observado sabe que está sendo observado e toma cuidado; o observador, sabendo disso, redobra a observação […]”

Afora o inteligente slogan “você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito”, o que o Observatório de Imprensa proporciona é mais uma janela de debates onde a participação cidadã é reconhecida, é o contraponto ao sempre discutível e relativo poder da mídia.

3- Cidadania e assertividade

Para Jung, existem vários mecanismos psicológicos e sociais, afora o biológico (a ponta do iceberg), por detrás da mente humana e suas formas de distorção cognitiva.

São inúmeros os mecanismos que acabam por impedir que enxerguemos a realidade como de fato é, quer conscientes — preguiça mental, autocorrupção, luta contra as evidências — ou inconscientes — dificuldade em superar modelos mentais cristalizados, mecanismos de defesa do ego, etc — , sobretudo quando a mesma nos é desagradável, inconveniente, traz dor ou necessidade de mudança.

Um novo olhar para o mundo exige primeiramente um olhar assertivo sobre nossas verdades e valores.

4- Cidadania e solidariedade

Solidariedade é encontrar juntos caminhos para problemas comuns. As comunidades de apoio na Internet reúnem pais, especialistas e informações pertinentes aos problemas comuns que os unem.

A mãe do André, o carinha bacana e sorridente aí da foto dá seu relato emocionada, dizendo que só pôde sentir o filho, já grandinho, ao se permitir um novo olhar, ao questionar e superar seu próprio preconceito social, aprisionador e mantenedor da “invisibilidade” do filho que, na foto, esbanja alegria. Talvez seja pela conquista da própria mãe 🙂

5- Cidadania e educação

É fato que a educação extrapola escolas. No olhar convencional, a palavra aluno — do latim a + lumnis = “aquele que não tem luz própria” — já representa um preconceito em si mesma. Em tempos de violências sociais tão evidentes, desdenhar necessidades e particularidades comunitárias é tão ineficaz quanto ignorar tradições culturais distintas.

As pessoas precisam de autoestima, de sentir que estão “vivas”, de participar simplesmente porque tem algo a dizer. Já não se pode falar só em como a Educação pode mudar o destino de uma Comunidade, mas em como as Comunidades vão impactar o destino da Educação.

Eis o olhar alternativo: o casamento de Educação e Comunidade é o casamento do aprendiz com o cidadão, a nova geografia do aprendizado do bairro-escola, conceito possivelmente extensível à cibergeografia do ciberespaço.

6- Cidadania e ação coletiva

A racionalidade nos faz agir em função do discernimento, que é fruto da experiência elaborada, entre outras coisas, a partir do que percebemos do mundo. Se não fora assim, seríamos mais instinto e menos cognição. Da qualidade das nossas percepções e valores dependerá a qualidade das ações empreendidas.

Qual o custo social da não renovação? Uma geração de idionautas repetindo os maus hábitos da geração anterior – os vidiotas?

7- Cidadania e informação livre

Uma sociedade que centraliza sua informações e seu conhecimento é, na verdade, uma sociedade doente, incapaz de compartilhar o que sabe e de incentivar cidadania em vários níveis.

Ao centralizar a informação e a comunicação, o que se produz no longo prazo é a fraqueza nas atitudes, a debilidade do pensamento único e a lavagem cerebral, incompatíveis com o próprio conceito de cidadania. Mais que ser desagradável, o contraponto é uma necessidade à formulação do bom juízo.

O discernimento precisa de pluralidade para amadurecer.

8- Cidadania e política

A política no Brasil está tão desacreditada que seria preciso reinventar-se completamente. Mas isso é possível. Há cem anos, os países escandinavos viviam um quadro político deprimente, onde a corrupção era a regra.

Tudo melhorou com o choque da educação, na base destas sociedades. A cada eleição, o povo estava mais preparado, as pessoas mais educadas, e renovava-se o congresso. A justiça também avançou, combateu-se a impunidade, e a economia avançou, combateram-se as desigualdades.

Hoje, a visão dos políticos nesse países é de servir ao povo, e contrangem-se em viver de mordomias as custas dos impostos. Políticos sabem se colocar no seu devido lugar, de cidadãos que servem ao social. Quanta coisa mudou!

9- Cidadania e emancipação

Na visão populista, o futuro deve ser outorgado, pois se credita que as pessoas são incapazes de se organizar. A história mostra que só pensa assim quem vive de explorar os outros, com intenções político-eleitoreiras de quinta categoria.

Na visão emancipadora, o futuro precisa ser conquistado, inventado, e não herdado. Normas inteligentes é que dão liberdade para que as pessoas se organizem e façam brotar talentos em todas os níveis, em todas as classes. As políticas públicas são pensadas, debatidas e propostas nas bases, tramitando nas casas legislativas na hora de legitimar.

10- Cidadania e sustentabilidade

Há um legado de estruturação e estratificação social ao qual a sociedade se acostumou por milênios. Não é fácil falar em sustentabilidade sem tocar nesse ponto.

Antes da Internet — a comunicação entre pares — a mídia fazia a intermediação com as notícias e as ações no poder. Como a Internet, tudo muda. Agora o poder se aproxima dos cidadãos, nas redes sociais e portais de cidadania as interações aumentam, o debate, as causas, as chamadas, os coletivos, as pautas sociais.

Na verdade, a perspectiva é emergirem mais instrumentos para que a sociedade civil se organize. E isso fará com que a cidadania paute governos e empresas, no futuro breve. A única certeza: temos que conhecer as soluções eficazes de mobilização e nos preparar para essa nova fase da cultura cidadã.


Cidadania em cena: CurtaDoc.TV; TV Câmara

Alexandre Mello

Multitarefas │ digital por formação │ pós-graduado por convicção │ empreendedor social │ autor │ conteudista

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