“Maddog, quem vai ouvi-lo falar sobre esse assunto? – me diziam há 20 anos atrás. Por isso, sempre tiro fotos do público de minhas palestras”. Essas foram suas primeiras palavras para executivos, programadores e jornalistas que encheram o auditório França, o principal palco para keynotes do Futurecom, no final da tarde desta quarta-feira.
Após guardar a câmera fotográfica, Maddog iniciou a defesa de suas idéias jogando alguns conceitos para que o público pensasse sobre a idéia de software livre a partir de seu ponto de vista. “Liberdade versus escravidão, Free (livre) versus Free (grátis), e escolha versus controle”, disse ele, ilustrando seu raciocínio a respeito da liberdade de uso de softwares dando aos presentes o endereço deste vídeo, que brinca com a imagem de pirataria vinculada aos softwares livres, publicado em seu canal no Youtube.
O bom-humor é característica marcante de Maddog, como é possível no vídeo citado anteriormente, filmado durante uma passagem sua por Florianópolis. Mas em meio a algumas piadas e brincadeiras, o tom de seu discurso era muito sério, defendendo a publicação de código-aberto de softwares, para que empresas e usuários possam modificar suas características de acordo com suas reais necessidades.
Para aproximar o público do assunto abordado, o palestrante citou alguns cases de empresas brasileiras que fizeram uso de software livre para driblar algumas dificuldades técnicas.
Primeiramente, Maddog mencionou uma empresa carioca (sem citar o nome dela) que precisava somente fazer uso de uma função específica de um software caro, disponível somente em inglês. Para cortar custos, a empresa contratou um desenvolvedor independente que produziu um software de acordo com as necessidades da empresa, com interface em português, pelo valor de pouco mais de 3 mil reais – valor que teria sido bem maior caso a empresa tivesse comprado as licenças do primeiro software em questão.
Outro case brasileiro de sucesso citado na palestra foi o uso de software livre por parte do Governo Brasileiro na administração da Loteria Federal. Segundo o vídeo abaixo, com legendas em português e produzido pela própria Caixa Econômica Federal, o uso de software livre a partir do sistema operacional de código aberto Debian (uma distribuição Linux) permitiu que fosse encurtado o tempo de criação de novos jogos de loteria. Finalizando os cases brasileiros, Maddog alfinetou os paulistanos presentes com a frase: “O dinheiro gasto com a compra do Office pela administração do Metrô de São Paulo poderia ter sido usado para melhorar as condições do metrô”.
Maddog defende que software livre não é sinônimo de pirataria, e que a “ditadura” do software proprietário é derivada do comodismo dos usuários e da pressão exercida no mercado pelas grandes empresas de software, que ganham grande margem de lucro com a exclusividade de seus produtos para determinados fins. Com o código dos programas fechado, é impossível para o usuário final alterar características do programa, o que o obriga a recorrer ao suporte técnico, que muitas vezes não oferece retorno satisfatório. “Com tantos bugs, é impossível que uma empresa possa dar suporte apropriado ao cliente”, enfatizou.
Prosseguindo com seu raciocínio, Maddog disse que os softwares são vendidos pelas grandes empresas como se fossem commodities – os chamados “produtos de base” vendidos em grandes quantidades, comuns às necessidades diárias de todas as pessoas, sem distinção de contexto social. Exemplificou: “Milho e café são commodities, mas carros não. Então por que tratar softwares como se fossem commodities? O propósito de um software é oferecer uma solução, e nenhuma solução é igual à outra”.
Finalizando, Maddog comentou que atualmente há exemplos a serem seguidos no ramo de software livre, citando algumas distribuições Linux bem sucedidades e cada vez mais populares, como o Android, o Debian e o OpenMoko. “Não há a necessidade de pagar as companhias que desenvolvem esses sistemas, mas eles encontram formas de lucrar com isso”, disse. É inegável que se trata de um modelo de negócios que vai de encontro à tradicional busca pelo lucro e domínio de mercado, mas também é impossível negar que muito do que esse senhor barbudo disse em sua palestra faz sentido no contexto atual.