A Entresafra Epistemológica

Vejo muita gente intuindo sobre Consciência Coletiva, Nova Era, Terceiro Milênio entre outros chavões que tentam explicar a transição cognitiva em curso. Mas poucos se arriscam a explicar como isto afetará a ordem mundial -a Aldeia Global e os Eixos de Poder. paradoxos_(ESCHER).

Como exigência intelectual para os mais ansiosos, é preciso compreender que não dá pra tratar de um assunto árido como este em poucas linhas. Talvez com imagens (*), quem sabe?

Há muitos paradoxos. As sociedades avançam porque o conhecimento avança, porque você avança. Paciência, caro leitor. Se está com preguiça mental, este post não vai lhe agradar…

Para quem vai em frente, eu pergunto: O que foi o Renascimento, há mais de 4 séculos?

Justamente o movimento histórico de convergência que levou ao irrompimento de novos valores, centrados no desafio de formar novos sujeitos - cidadãos livres, ativos, protagonistas da história e não mais elementos passivos, submissos, vassalos - pensamento que propiciou novos tipos de associações entre indivíduos e possibilidades de saber e conhecimento, negligenciados até então, produzindo mudanças no cenário das decisões mundiais, ao questionar as bases do poder em vigor: o Sistema Feudal Decadente e o Teoterrorismo da Inquisição Católica.

Nos dias de hoje, há uma super-expectativa em relação ao conhecimento técnico-científico e uma sub-expectativa negligente em relação ao conhecimento autoconsciente (autoconhecimento, conhecimento de si mesmo). A chamada “Ciência de Impacto” tornou-se um novo eixo de poder, pois alinha-se majoritariamente aos governos e orçamentos oficiais, e deles sobrevive.

A Ciência, a Mídia e a Internet fazem explodir a quantidade de informações circulantes, mas o ser humano, via de regra, quando alfabetizado, continua sem saber como filtrar essa avalanche, como distinguir o que interessa do que não agrega valor, como separar o joio do trigo, como ser seletivo (no bom sentido).

Há uma clivagem entre o conhecimento das chamadas Humanidades e o conhecimento haurido pelas Ciências Exatas, subproduto do debate sobre o paradigma mecanicista - ainda dominante, mas em vias de esgotamento, e de uma nova forma para pensar a vida, o homem e o universo que o cerca. contrastes_(ESCHER).jpg

Todos sabemos que para minimizar as atuais lacunas entre Individualismo-Coletividade, Ser-Ter, Egoísmo-Solidariedade, Ocidente-Oriente, Fé-Razão, Filosofia-Ciência, entre muitas outras dicotomias, é preciso avançar no conhecimento multicultural, que implica rever os sistemas políticos e econômicos que sustentam uma convivência tão desigual como a que atualmente se verifica.

E rever sobretudo preconceitos e fronteiras do saber. Einstein dizia que “é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”. Mas seria então necessário um Novo Humanismo? Novo Antropocentrismo? Novo Renascimento?

Eis meu conceito de entresafra epistemológica: Uma série de evidências indicam que a mola-propulsora da Sociedade do Futuro está na Nova Epistemologia, que vai fundamentar um alicerce muito mais profundo sobre o ser humano - indivíduo e espécie, capaz de inaugurar, assim espera-se, uma nova ética. concavo_convexo_(ESCHER).jpg

A primeira evidência é que o edifício da Psiquê Humana ainda não está completo, como dissemos. O Renascimento proporcionou um “andaime” neste edifício - a busca do centramento sociopolítico dos sujeitos.

A partir de uma atitude multi-inter-transdisciplinar e transcultural, abre-se a possibilidade de avançar o estudo da mente humana, em seu potencial adormecido, sem os preconceitos de raça, cor, sexo e cultura. Um passo decisivo à própria compreensão da vida é que a perspectiva da evolução vá além de meras mudanças anátomo-morfológicas nos corpos biológicos.

(Re)centramento. Eis o nome provisório para o novo momento. fragmentacao_(ESCHER).jpg

O mundo moderno trouxe inúmeras fragmentações sobretudo a de identidades.

Pode-se dizer que a consciência do centramento atual é cognitiva - a nova fronteira do saber, o debate a ser enfrentado por aqueles para quem não basta apenas o saber (fatual, categórico) mas sim saber como souberam o que já sabem e como saber o que ainda não sabem (processual, fenomênico).

Todo brasileiro, por exemplo, bem que poderia orgulhar-se do trabalho em curso no Instituto Internacional de Neurociências de Natal, capitaneado por Miguel Nicolelis - um cientista brasileiro, que abre as portas para este estudo, no formato multidisciplinar e transcultural, que é o que interessa para o avanço do conhecimento. Lá se desenvolve ciência com enfoque social. Ponto pra eles !

A entresafra atual não é mera condição herdada do paradigma dominante. Vejo mais como uma transição necessária até que as abordagens epistemológicas amadureçam, o que permitirá reinterpretar a abundante fenomenologia disponível. Não se muda a História, mas a visão que dela temos.

Com a “subjetividade”, a vilã do paradigma mecanicista, considerada variável indesejada no meio científico mais ortodoxo, a “realidade” desloca-se de eixo. Deixa de ser a realidade exterior, e torna-se o ponto de vista subjetivo último da realidade, antes exterior (dita “objetiva”), que passa a ter sentido só quando desfragmentada e filtrada por você, tornando-se portanto interior.

Ou seja, a realidade que interessa é a que você compreende e a que você está apto e disposto a moldar. Dito de outra forma, num mundo em evolução, ao fazermos escolhas, a nossa realidade, a subjetividade deveria (ou poderia) ser exaltada, por incorporar a moral e responsabilidade atribuída a cada um de nós, na construção dos alicerces pessoais e sociais do futuro.

Se a Ciência não se propuser a interagir com o Social, se não incorporar a dimensão íntima do sujeito cognitor, então será como o aleijão desavisado, correndo a maratona. Nesse sentido, podemos dizer que falta autocrítica ao cientista e, por extensão, à própria Ciência, ou a boa parte dela. percepcoes_(ESCHER).Jpg

Se o ser humano possui a capacidade inata de acesso e trânsito entre várias dimensões e estados de consciência, tendo explorado muito pouco (ou quase nada) tais capacidades, bem como formas avançadas de cognição e (auto)compreensão, porque não estudar isso pra valer? Porque submeter-se à ditadura dos sentidos, quando idéias geniais ocorrem mesmo durante sonhos ou estados de contemplação criativa?

Porque não fazer como MASLOW (1954, 1968), um dos pioneiros da Psicologia Transpessoal, que se preocupou em estudar indivíduos sadios, ao invés de indivíduos doentes e psicologicamente instáveis, alicerce da Psicopatologia e de toda Psicologia Clínica? Quem são os sujeitos por trás dos estados de consciência elevados, em experiências culminantes, mencionados por MASLOW (1968)? O que têm para nos ensinar?

Ao invés de querer anular a “praga da subjetividade”, porque não aprender com as idiossincrasias dos sujeitos diferenciados - as locomotivas da evolução? Não seria mais inteligente que a classe científica se debruçasse sobre esses indivíduos e seus saberes, aproveitando-se da alta capacidade de sua síntese crítica, de anos de labuta profissional, para avançar no conhecimento a respeito do saber intuitivo, do saber multidimensional?

De carona no ceticismo einsteiniano, há o desafio de saber como rever crenças profundamente arraigadas por milênios…

o_que_ha_do_outro_lado_(ESCHER).jpgNeste ponto, apelo para o modelo khuniano (KHUN, 1962), segundo o qual após a “gestação”, veríamos a “oposição” dos novos paradigmas seguida da “consolidação” de algum deles, em torno do qual novo consenso se estabeleceria, para dar suporte à ruptura paradigmática da magnitude da “superação” do materialismo, como realidade última.

O horizonte para um aporte cognitivo desta natureza já se pode conceber, pois a Ciência ensaia estudar o que está além dos 5 sentidos - os espectros de energia sutilizada que interagem a todo instante, produzindo sensações, cognição e memórias, de formas inusitadas e insuspeitas.

encontro_de_opostos_(ESCHER).jpgUm paradigma sustentado pela experimentação pessoal e pela valorização do amadurecimento permitiria rever a ética e a conviviologia de opostos desse nosso mundo caótico - uma generalização auto-evidente, penso eu.

A boa notícia é que há estudos sérios (poucos, mas relevantes) sobre o assunto, nas Universidades e mesmo fora delas, merecedores de crédito pelo pioneirismo. Nada mais ético que proporcionar o Direito à informação, o Direito à experimentação e o Direito à busca da verdade.

Se considerarmos a Aceleração da História, seria a quarta transição, não mencionada por Devezas & Modelsky?

É preciso que a nossa inteligência social seja capaz de questionar nossas “prisões intelectuais”, antes de questionar o poder instituído. Pior que a ditadura do poder econômico é a ditadura da ignorância evolutiva.

É preciso também fugir das armadilhas reducionistas do tipo Individual x Coletivo, Desenvolvimento x Evolução, Criacionismo x Evolucionismo. Quem defende cegamente seu moral e seu esquema mental, na prática fechou-se para o saber. A este, a experimentação pessoal nada pode ensinar.

a_origem_(ESCHER).jpgA dialética parece não funcionar nesta hora, privilegiando a heterocrítica em detrimento da autocrítica. Perde-se as sutilezas, como na crítica radical de uma doutorando em Biotecnologia Molecular Estrutural/USP. ao pretender desconstruir a Teoria da Evolução. Sobram verdades e argumentos aos dois lados, mas faltam as vivências pacificadoras.

Quer mais? Há muita ambiguidade no desenvolvimento, seja social ou científico. Avanços e ameaças se sucedem, ora contrapondo-se, ora contradizendo-se. E há a imensa lacuna a ser superada da velha ética, já falida, e da nova ética - a dos sujeitos autoconscientes, expoentes da evolução.

Questionemos: não seria um tremendo mata-burro a ambição cega, a exploração das fragilidades alheias e o nonsense anti-ecológico?

olhar_para_si_(ESCHER).jpgApesar de meu balanço não ser favorável para a capacidade de governos e organizações de propiciar esta autocrítica e de trazer no curto prazo mais benefícios que mazelas aos sujeitos - a esta altura na casa dos 6,5 bilhões, quero dizer que sou mais otimista que a maioria dos caladões por aí.

Há um alinhamento por afinidade entre os que desconhecem seu poder (aos milhões) e os que o conhecem, mas usam mal: vivem relações co-dependentes de manda-quem-pode-obedece-quem-tem-juízo. Esta é a conclusão a que chego.

Poucos são os que disciplinaram o pensamento para uso do poder pessoal em benefício do coletivo, seja escrevendo, pensando ou produzindo, cuja ação costuma ter profundidade e amplo alcance, ainda mais numa sociedade de hierarquias abertas (com exceções, naturalmente) e em rede, onde o conhecimento relevante está cada vez mais disponível (quando bem filtrado).

Mas não vou gastar meus fosfatos cerebrais para saber quanto tempo vai demorar para essa ficha cair. Se já caiu pra você, está bom demais !!! Pensando bem, melhor gastar o tempo arregaçando a manga e colocando a mão na massa. E Então?

(*) As imagens que ilustram esse post são todas do artista ESCHER.

Entrevistamos Milena Boniolo - vencedora do Prêmio Jovem Cientista 2006, sobre Desafios da Ecologia

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Perfil da Entrevistada

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Nome
: Milena Rodrigues Boniolo

Email: milenaboniolo@yahoo.com.br

Data Entrevista: 04 /06 /2007

by Alexandre Mello e Daniel Muniz

Consultoria Técnica: Paulo Abrantes (INTEGRA)

Milena Rodrigues Boniolo cursou Química nas Faculdades Oswaldo Cruz. Apesar da juventude, tem posições bastante firmes em relação ao Universo Acadêmico que conhece bem de perto, e a necessidade da academia rever suas relações com a Indústria, os Setores Produtivos e Sociedade em geral. Reconhecida como pesquisadora de talento extraordinário, MILENA recebeu em maio/07 o Prêmio Jovem Cientista, edição 2006, na categoria graduados, com o trabalho “Uso da casca de banana para tratamento de efluentes radioativos”, que faz parte de seu projeto de mestrado desenvolvido em pesquisa no Centro de Química e Meio Ambiente do Ipen.

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1- Sabemos que os aspectos quantidade e qualidade da água estão relacionados, podendo haver escassez mesmo em condições onde a água é abundante. No chamado primeiro mundo, é crítico o tratamento de efluentes industriais. No terceiro mundo, o problema dos efluentes domésticos. Qual a importância de avançar nesse conhecimento para a conservação dos recursos hídricos e dos ecossistemas e quais as perspectivas para os próximos anos?

A qualidade da água interfere diretamente na qualidade de vida de uma população. Veja o exemplo das doenças de veiculação hídrica e seu crescimento. O país economizaria e MUITO na área da saúde se investisse na melhoria da qualidade das águas.

milena16.JPGPara os próximos anos, acredito que o Brasil precise sair das “ilhas de conhecimento”, conhecidas como UNIVERSIDADES e possa tornar as idéias um negócio.

Isto é, precisamos sair do mundo das idéias (de Platão) e partir para a ação.

O que as pesquisas científicas de caráter estritamente acadêmico mostram-nos é apenas uma impressão da realidade quântica e problemática que está ao nosso entorno.

Torna-se cada vez mais útil ter idéias, fazer pesquisas e aplicá-las, como um ciclo que teria a capacidade de fornecer ao nosso país competitividade tecnológica. Parece, infelizmente, que paramos na etapa da pesquisa!

Muitas universidades ainda tem caráter mais acadêmico que tecnológico. A indústria e os centros de pesquisa parecem fazer parte de uma verdadeira TORRE DE BABEL, cada um em sua ilha com seus prazos e linguagem próprios.

Para que migrem menos cérebros brasileiros é preciso que existam mecanismos de interligação entre a Indústria e a Universidade e que hajam incentivos para este tipo de sociedade.

2- Você considera que hoje, além da falta de cultura de valorização científica desde as escolas, falta cultura ao empresariado, no sentido de investir nas pesquisas desde a sua origem, na academia, contribuindo para as soluções ao invés de correr atrás apensa de “bater metas” de produtividade? Muitos consideram a biodiversidade tropical, por exemplo, uma mina inexplorada, a céu aberto? Que idéias e soluções são possíveis vislumbrar para esse quadro?

Mais uma vez a forma de trabalhar da Academia e da Indústria são totalmente diferentes. Muitos pesquisadores estão bem em suas rotinas, sem pressão ou cronograma. Sua rotina resume-se em publicar alguns artigos e ir a alguns congressos.

Já no setor privado existem metas, prazos e cronogramas. Alguns pesquisadores fogem deste tipo de trabalho porque se torna mais cômodo permanecerem no menor nível energético. Os que gostam de desafios e os assumem ainda são minoria dentro da Universidade, infelizmente!

A pesquisa deve ter aplicação senão, para que tanta pesquisa? Para fazer um pôster e pendurar em um congresso que poucos frequentarão?

Na verdade, hoje a mentalidade no Brasil assemelha-se em, alguns aspectos, a rotina de bombeiros, apagando o fogo, atuando na remediação. Sem prevenção e educação, o custo se torna muito elevado.

A biodiversidade tropical tem sido alvo de trajetórias como a internacionalização da Amazônia, o que sou contra. Países desenvolvidos exploraram toda sua biodiversidade e agora que não têm mais nada a ser “explorado” querem a nossa Amazônia.

O Brasil não explorou. Mais que isso, vem “detonando” toda a Amazônia por falta de recursos financeiros e de consciência ambiental. Se nossa farmácia tropical for estudada de forma sustentável, não haverá problema algum. O que não pode ocorrer é a plantação de soja, desmatamento (gado ou madeireira) e queimadas.

3- Em termos de aplicação prática do conhecimento científico, segundo sua experiência universitária e docente, qual a proporção existente hoje de pesquisas focadas na solução de problemas ecológicos, digamos, cotidianos, sobretudo no Terceiro Mundo? A ciência ainda esbarra na política?

Existem trabalhos de extrema qualidade realizados por pesquisadores brasileiros, comparados aos do primeiro mundo. Mas, o retorno que muitos gostam de receber não é da aplicação do estudo realizado em questão, mas sim em ter seu trabalho publicado em uma revista científica de Qualis A e ponto. milena12.jpg

O pesquisador é julgado e qualificado por sua produção e participação em eventos e periódicos, então faz o que lhe é pedido. Deveriam avaliar os pesquisadores também pela questão da aplicabilidade e do custo do projeto, o que já seria um grande começo.

Volto a criticar a postura cômoda de alguns pesquisadores. O jovem pesquisador com ousadia nem sempre é bem recebido nas academias, não tem o perfil necessário e muitas vezes é absorvido por indústrias multinacionais que assolam mais ainda o nosso país como subdesenvolvido.

Existem inúmeros trabalhos preocupados com questões ecológicas atuais, que acabam indo parar nas bibliotecas com o final da dissertação ou da tese.

4- Em sua opinião, como o meio acadêmico vê a força das pequenas comunidades de aprendizagem (virtuais ou não), no sentido de espaços para discussões abertas de conhecimento enquanto fator de desenvolvimento humano, digamos, na contramão da banalização tradicional proposta pela Redes de Mídia de Massa e pela Indústria Cultural?

Deveria haver um programa “Por dentro das universidades”, sei lá! O espaço ainda é curto, fala-se mais em pseudo-ciência que em ciência. A mídia mais alarma que informa.

Para citar um exemplo, quase todos sabem o que é aquecimento global, mas ainda pensam que as gerações futuras é que sofrerão. Que no cotidiano não tem como nós ajudarmos em nada. Que as autoridades precisam fazer alguma coisa e frases do tipo.

Entrando na questão comercial, pode-se questionar sobre o que é rentável exibir numa capa de revista. Quais são os valores que norteiam nosso país? Pra que tanto espaço para escândalos e celebridades “sem cérebro”?

5- Em quatro meses, um Blog iniciante, com um autor que se dedica a escrever assuntos sérios, publicando artigos a cada dois dias, em média, pode chegar a 15 Mil acessos. São milhares de pessoas impactadas, refletindo numa rede de interatividade, a partir de um epicentro formador de opinião. Como você avalia este potencial? E complementando, você tem Blog? Por que?

Ainda não tenho blog, falta de tempo. Mas estou a pensar em criar um. Trata-se de uma importante fonte de informação e capacidade de divulgação.

6- Não se pode mais teorizar apenas em como a Educação muda as Comunidades mas, em acréscimo, em como as Comunidades mudam a Educação. Você concorda com este argumento?

É uma pena, mas muitas escolas tratam seus alunos como clientes. São os alunos que ditam o horário de entrada e saída das aulas, se vão ou não utilizar uniformes, se o professor trabalhará na instituição no próximo ano letivo, dentre outros.

O professor, dentro deste contexto, perdeu seu valor. Mas muitos esquecem da profissão fundamental que é ser professor. Preparar mentes para o futuro é fantástico, é como educar filhos. Se um professor falhar, a sociedade falhará junto com ele !!!!

milena13.jpgA atividade de um professor reflete nas inúmeras esferas da sociedade.

Devemos, claro, resgatar valores culturais das comunidades, respeitar e bio-regionalidade e trabalhar os conteúdos escolares contextualizados.

E assim, a educação auxilia na melhoria de qualidade de vida das populações ao entorno das escolas, como exemplo, com feiras culturais, palestras, eventos artísticos, enfim, a escola (educação) deve contribuir para a melhoria das características das comunidades ao seu redor, deve atuar como agente expansor de conhecimento.

7- Poderia comentar sobre a questão da supersimplificação, onde pessoas acham que ao plantar uma arvorezinha no fundo da escola ou no grupo de escoteiros, só no Dia Mundial do Meio Ambiente, estão contribuindo com alguma coisa?

Realmente, a maioria das pessoas só lembra do meio ambiente na semana do meio ambiente, ou quando assistem desastres ecológicos junto à TV. Acreditam que o meio ambiente é algo separado de SUA vida. Cuidar da natureza é antes de tudo, cuidar de si próprio.

Quando me preocupo com a contaminação de algas por metais pesados na água penso em mim também. Se existem peixes trocando de sexo por presença de hormônios na água isso interfere diretamente em minha vida!

O caos invadiu a teia de nossas vidas! E muitas pessoas acreditam que a natureza é algo separado de nossas próprias vidas. Algo que eu cuido, que eu planto ou que eu rego, na verdade a natureza somos nós!!!

8- Para fazer o contraponto, a tendência oposta seria a da superestimulação, onde se introduz na mídia a estratégia do pânico, com o chamado “ecoterrorismo”, travestido de conscientização ecológica, fazendo reportagens catastróficas, talvez com a intenção de vencer pelo cansaço. Como equilibrar essa questão?

A culpa não é apenas da mídia. A população parece “sedenta” por desgraça. Caso contrário não haveria tantos jornais e revistas sensacionalistas.

É muito simples culpar grandes veículos de comunicação da mesma forma que culpamos o governo, o prefeito ou a diretora da escola. O que eu faço da informação?

Eu, por exemplo, levo toda semana um recorte de jornal para ler, esclarecer e debater com meus alunos, inclusive junto de outros professores.

Mesmo nos jornais respeitados há visões errôneas e devemos (principalmente os professores) preparar as mentes do futuro para os questionamentos. Muitos acham que porque está publicado na Folha de São Paulo é verdade. Se o presidente aprovou o biodiesel, então é porque é maravilhoso. Ou ainda que se um cientista da NASA falou, então tá falado.

Os jovens precisam aprender a analisar as informações circundantes da mesma forma que analisam a vida dos participantes dos reality shows. Os professores têm função essencial de formar cidadãos críticos e não passivos e vulneráveis à massificação.

9- O cinema e os documentários podem ser o caminho mais eficaz para a compreensão definitiva, sobretudo em camadas mais populares, da relação dinâmica indivíduos-meio?

Acho que sim, desde que sejam filmes e documentários atraentes, que não expressem diretamente a opinião do diretor, mas que levem à reflexão!

Uma questão importante: Deve-se dar respostas ou devemos mostrar diferentes opções, com diferentes riscos e custos? O cidadão precisa aprender a escolher o que para sua cultura parece ser o melhor caminho.

10- Como as Universidades têm se colocado diante da clivagem Economia - Ecologia e como reverter esse quadro (antes que ele acabe conosco)?

Acredito que nas Universidades a viabilidade econômica deva ser tão avaliada quanto os aspectos técnicos e teóricos da idéia. Pesquisas brasileiras deveriam solucionar problemas nacionais. Isso é tão óbvio!

Hoje, trabalhar a favor do meio ambiente gera lucro. Já existem ferramentas como a gestão ambiental, a ecoeficiência (*) e a contabilidade ambiental (que converte atitudes ambientalmente corretas em valores monetários).

Mas aqui, além de problemas como as superpopulações, esbarramos na questão do consumismo. Torna-se difícil não querer trocar de celular, computador ou carro diante das inúmeras “facilidades”. E a sucata eletrônica gerada é enorme!

Quer uma boa notícia: Um jovem cientista, Hugo Veit (Vencedor em terceiro lugar na categoria graduado deste ano do Prêmio Jovem Cientista) está estudando o problema.

(*) Conceito de ecoeficiência: Ecoeficiência é obtida pela produção de produtos e serviços competitivos, de modo a satisfazer as necessidades humanas com aumento da qualidade de vida, enquanto se reduz os impactos ambientais adversos e o uso dos recursos naturais durante todo o ciclo de vida do produto, em consonôncia com a capacidade da terra.

Sete dimensôes da ecoeficiência:

  • Reduzir a intensidade do uso de materiais em produtos e serviços;
  • Reduzir a intensidade do uso de energia em produtos e serviços;
  • Reduzir a dispersão de produtos tóxicos;
  • Permitir/estimular a reciclabilidade dos produtos;
  • Maximizar o uso sustentável de recursos renovíveis;
  • Estender a durabilidade dos produtos;
  • Aumentar a intensidade dos serviços.


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Sobre pontes e escadas - como fazer o conhecimento avançar?

Pontes são elementos concretos de ligação entre dois lados, inicialmente isolados. São elementos de acessibilidade, que permitem superar barreiras de distância. Se só existe uma ponte, pouco intercâmbio será possível. Com mais pontes, mais intercâmbios e mais interação.

E uma escada? Outro elemento de ligação e de acessibilidade, não para acessar lados distintos, mas patamares distintos, dentro do mesmo lado. Um patamar mais elevado é acessível a partir do patamar que o precedeu. E vice-versa.

e_dai.jpgDaí que, em outra escala, mais abstrata, em uma escala nem sequer física, o pensamento e seus derivados (cultura, informação, aprendizagem, conhecimento, memória, etc.), também carecem de “pontes” e “escadas” para se intercambiarem.

Tendemos a permanecer juntos com pessoas por quem sentimos afinidades. Os semelhantes se atraem. A Lei da Atração impera. Nossas escolhas afetivas se baseiam fortemente nesse componente. Por isso é tão difícil compreender aquilo que difere do nosso mundo mental, entender as diferenças, porque estão distantes “espacialmente” (em outro lado) e “topologicamente” (em outro patamar). É nesse sentido que metaforicamente só pode haver intercâmbio cultural através de “pontes” e “escadas” no pensamento.

O grande desafio (a pedra no sapato) em todos os tempos sempre foi compreender a questão da mente humana, abordada de forma diferente entre diversas culturas e sub-culturas (culturas dentro de culturas). Quem somos nós afinal, qual o significado da vida, da existência, o que é a consciência, qual a natureza da inteligência, como se dá a evolução, mais até do que especular sobre a gênese de tudo e tal. Há quem diga que foi em sete dias…

Atualmente, vivencia-se um dilema na ciência, super-hiper-ultra-especializada, que a despeito de seu grande desenvolvimento e sofisticação técnica, as Big Sciences deixam muito a desejar quando o assunto é a mente humana, pois carecem da visão integradora, à luz de um paradigma igualmente integrador, que possibilite abarcar então esta “nova” realidade.

Relativizar a separação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível, um dos pilares do Positivismo, base do paradigma atual, é assunto comburente em certos círculos (e cátedras). Conceito esse válido e aceito (apesar das restrições) para estudar realidades concretas, torna-se frágil quando o objeto a ser estudado é o próprio conhecimento, a própria consciência. Ao ignorar o que sinto, como poderei estudar o que penso? Eis um fato da vida.

tem_logica.jpgOu será que deveríamos nos contentar com uma ciência sem consciência, uma barreira de jamais podermos estudar metodicamente e criteriosamente as realidades subjetivas que produzimos? Ou o que seria pior, desconsiderá-las só porque são subjetivas e não, válidas universalmente.

Do outro lado da ciência fragmentada, ou da ponte, como queiram, estão as chamadas Humanidades, cuja visão tradicionalmente é integradora. Nesta visão, o ser humano não é só máquina, como revelou a ciência. Genes, células, órgãos e tecidos estão lá, mas sob controle de um meta-elemento que os anima (alma, que vem do latim “ânima”).

Pois bem, eis uma difícil questão: a compreensão meta-biológica da vida, o sentido da existência em um planeta refém da própria cultura autofágica da maioria de seus hóspedes, depende do paradigma que se usa. Paradigmas são modelos mentais, consensuais e, ainda que durem milênios, são finitos. A partir de uma revolução paradigmática em diante (no sentido Khuniano), sustentar o velho paradigma é que se tornaria uma anomalia.

Em períodos de Ruptura Paradigmática iminente, como o que vivemos atualmente, inaugurado no início do Séc. XIX com o fim da ilusão materialista como realidade última, quanto mais se precisa de intercâmbio, mais evidenciam-se duas polaridades de pensamento: o conservadorismo e o vanguardismo.

O conservador vê nas “pontes” uma ameaça ao status a que se acostumou, e trabalha para destruí-las. Vê imposturas em tudo que é canto e, com medo de mudar, sobe e desce a mesma “escada”, especializando-se em cada um dos patamares, desde que se mantenha preso à tradição. Só de pensar em ter que rever todas as suas teorias, todo seu saber e, por extensão, todas a história humana, a luz de novas teorias, prefere mesmo que tudo continue como está.

Já o vanguardista, em geral, cansado de subir e descer a mesma “escada”, adora construir “pontes”, que permitam questionar sua cultura natal, seu saber local e sua filosofia herdada porque sabe que, oxigenando suas idéias, contribui concretamente para o avanço do conhecimento integral. Não se convence facilmente com a noção de que sua cultura é a melhor, e “ganha o mundo” para ver o que mais encontra.

Para mim, a transdisciplinaridade é o grande ensaio, seria o principal movimento capaz de reunir os vanguardistas, com a força de ser uma “escada” e uma “ponte” para a transculturalidade e a cidadania global.

Eis, de volta, a questão central do post (e do próprio blog): se o avanço do conhecimento se dá pelo (auto)conhecimento, facilitado pelo vanguardismo, porque o vanguardista ainda precisa encarar a condição de andar na contra-mão, em contra-fluxo, sempre visto com olhos de desconfiança?

E mais umas perguntinhas inquietantes: Por que não se poderia conceber uma sociedade aberta à mudanças? E por que ao tocar em assuntos polêmicos logo aparece alguém para discriminar e chamar de herege, sonhador, doidivanas, sincrético, utópico e tal?

dica.JPGPara os que nunca se cansam de aprender, eis alguns movimentos interculturais em andamento. Identifica-se com algum?

IASB - Centro de Intercâmbio Acadêmico Sino-Brasileiro - com a missão de realizar intercâmbios culturais e acadêmicos entre a China e a América Latina.

Mind and Life Institute - Trabalho em colaboração e parceria em pesquisas entre a Ciência Moderna e o Budismo.

ISSSEEM - Science And Energy Medicine - Força tarefa de “cientistas com inclinação mística” e “místicos com inclinação científica”, conforme anunciado no site.


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Banana, Criatividade, Ética e Brasilidade - Fórmula da Despoluição da Água

Brasileira, 25 anos, pesquisadora em química, professora e filha de pais preocupados com o meio-ambiente. Um descrição pra lá de objetiva para descrever MILENA RODRIGUES, que acaba de receber o Prêmio Jovem Cientista 2006 por sua pesquisa: “Uso da casca de banana para o tratamento de efluentes radiotóxicos”.

milena.jpgEis a simpática MILENA, do Brasil para o Mundo, recebendo sua justa homenagem na Faculdade Oswaldo Cruz.

Mas as características que mais se sobressaem nela são justamente as subjetivas. Mistura de juventude, feminilidade, simpatia, criatividade, simplicidade e ética, com tempero de brasilidade inconfundível.

Mais do que isso, sabe compartilhar conhecimento sem pompa, sem se achar a tal. Tomara que continue assim. E olha que foi premiada e tá dando uma entrevista atrás da outra…

Sua participação no Programa Sem Censura, da TVE (reexibido em 30/abril) é um show de entrevista, arrancando um “tô impressionada com essa moça” da apresentadora LEDA NAGLE.

Vejamos alguns dos tabus que ela desconstrói, em 15 minutos de entrevista, não mais do que isso:

  • Ciência não é lugar de mulher;
  • Mulheres não são lógicas;
  • Inteligência feminina não é privilegiada como a masculina;
  • Lugar de mulher é em casa;
  • Pessoas comuns não compreendem a ciência;
  • É difícil popularizar a ciência;
  • TV não serve para fazer divulgação científica;
  • Soluções importantes são soluções caras;
  • Grandes problemas se resolvem de forma pontual (quando é justamente o contrário, pois a visão integrada é que permite abordá-los da forma correta);
  • Reciclagem é luxo;
  • Lixo é sempre um problema;
  • Poluição da água é problema ambiental apenas;
  • Aquecimento global é irremediável e irreversível.

Na rotina científica, o conhecimento (base teórica) conduz sua aplicação (prática), que retro-alimenta o conhecimento. A informação científica de ponta, resultante desse processo, fica então a disposição de quem souber ou puder empregá-la.

No lado ético, em geral, justificam-se os deslizes com argumentações do tipo “não se pode impedir o progresso”, “a ciência é neutra” ou “a humanidade não evolui sem a ciência”, esquecendo que “a ciência também não evolui sem humanidade”.

No caso da MILENA (veja bem, não a conheço pessoalmente, só pela entrevista, que infelizmente não gravei), parece que a rotina laboratorial em nada prejudicou sua sensibilidade ou amoleceu suas convicções, seus ideais, que ela coloca a serviço do seu potencial. Sua frase “a Faculdade me mostrou o caminho das pedras e a minha curiosidade me impulsionou a ir atrás dos meus ideais” exemplifica este ponto.

Na entrevista, expôs seu assunto, mostrou serviço, pediu o patrocínio, argumentou sobre os benefícios, alertou sobre a urgência e, mais do que isso, mostrou o valor da educação para estimular e libertar o pensamento, ao contrário da visão convencional, que se preocupa com fórmulas, decorebas e enfiar conteúdo goela abaixo.

Um libélulo, que merece ser visto e ouvido, de como a boa didática pode motivar e cativar os aprendentes e ajudar a superar a tão falada (e tão pouco compreendida) Crise da Educação Tradicional.

Já até pedi que coloque a entrevista do Sem Censura no Youtube, pra linkar aqui. Por hora, podem assistir a moça no laboratório, dando entrevista para o Programa Repórter Eco, e com aquele sutaquinho paulistano que agente conhece de loooonge :)

Quem disse que cientista tem que falar igual a jornalista de horário nobre, todo sério, sem expressão e sem maneirismos? Seria este mais um tabu que a moça veio para quebrar? Seria bom mesmo, porque a ciência fica muito menos pomposa (e muito mais atraente) assim!

Pra ganhar Nota 10 (rs.), só fica faltando agora criar um blog e vir pra blogsfera compartilhar suas idéias…


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