Eufemismos - Criatividade ou dificuldade em lidar com a realidade?

Essa semana assisti a uma entrevista no Programa do Jô, onde surgiu o assunto do eufemismo, um efeito de linguagem para suavizar realidades indesejadas ou doloridas.

Como não tinha escrito nada sobre isto ainda, este será mais um post (*) da série sobre construtos e palavras, pois se tem uma coisa que sempre me impressiona pela variedade que permite é a linguagem. Fiz uma pesquisa rápida e eis o que encontrei:

eufemismos.JPG

Vivemos imersos em uma avalanche de eufemismos. Quanto mais crítico o olhar sobre a mídia, mais se perceberá.

Os eufemismos, malandramente, acabam sendo usados para ocultar ou disfarçar realidades. É assim que vítimas inocentes nas guerras viram “efeitos colaterais”, mentir vira “faltar com a verdade” e corrupto vira “aquele que caiu em tentação”.

Mas também podem estar a serviço de ideologias. Lembram-se do Dicionário do Politicamente Correto, rechaçado por 10 entre 10 intelectuais? Um exagero. No mínimo, uma forçada de barra. Focar em proibições desse tipo é declarar a falência do Estado em ser pró-ativo na educação de seus cidadãos. Esse o motivo pelo qual o governo brasileiro publicou (e retirou de circulação em seguida) a tal “cartilha”.

Usado para turbinar o marketing, Padarias se transformam em “boutiques de pão”, Motéis em “espaços inesquecíveis de lazer a dois” e Centros de Podologia em “Clínica dos Pés”.

Para se livrar de rótulos indesejáveis, faxineira(o)s viram “profissionais da limpeza”, policiais viram “profissionais da segurança” e catadores de papelão e latinha viram “profissionais de reciclagem”.

Há também os tabus sexuais. Muitos eufemismos foram criados para lidar especificamente com tabus sexuais. O linguajar popular é influenciado por conservadorismo de várias naturezas, e por isso a criatividade é tão profícua. Em certas culturas, as referências às relações sexuais são sempre indiretas, como na ortodoxia judaica. Como se pode conhecer algo sempre evitando este mesmo algo?

Somente em relação aos órgãos sexuais, as palavras pênis e vagina possuem juntas dezenas de “apelidos”. Confere lá.

Já para fazer sexo, algumas expressões são até engraçadas, e denotam mesmo a intimidade a que chegam alguns casais. Veja um pouco do que rola por aí:

Afogar o ganso
Bola na caçapa
Molhar o biscoito
Repartir a peruca
Gratinar o caneloni
Baratinha no espeto
Dar tapa na aranha
Agasalhar o croquete
Envernizar a madeira
Levar a tora para serrar
Tchaca tchaca na butchaca
Dar chinelada na cara do sapo
etc

Sobre a masturbação, o que se ouve ?:

Trocar o óleo
Socar o pilão
Pelar o ganso
Esticar o berimbau
Comemorar com os 5
Descabelar o palhaço
Fazer o palhaço chorar
Fazer uma homenagem
E mais um monte de outras expressões que um gaiato listou.

Mas a expressão campeã de eufemismos é morte. Como é assunto-tabu por excelência, há séculos mistificado, mitificado e bastante mal compreendido, sobretudo nas culturas ocidentais, esse é seguramente o termo mais eufemizado de todos os tempos.

Eis algumas pérolas da tanatologia poética:

Repousar lá no céu eternamente (Camões)
Quando a indesejável das gentes chegar (Bandeira)
Virou estrela no céu
Voou para o firmamento
Dormiu o sono eterno
Deu o último suspiro e partiu
Chegou a hora e ele(a) se foi
Passou para o outro lado
Partiu desta para melhor
Vestiu o último paletó [de madeira]
Mudou de endereço para sempre
Papai do céu chamou (religião, infantil)
Um anjo veio buscar (religião, infantil)
Entregou a alma pra Deus (religião)
Retornou ao Pai (religião)
Subiu aos céus
Descansou enfim
Desencarnou (espiritismo)
Encontrou a luz (espiritismo)
Encerrou seu estágio terreno (espiritismo)
etc

E o árido linguajar das páginas policiais:

Cadaver (cara data verminus, que em latim é “carne dada aos vermes”)
Apagou de vez
Bateu a caçoleta
Bateu as botas
Foi detonado
Virou presunto
Esticou as canelas
Caiu durinho da silva
Indivíduo estirado no chão
Abraçou o diabo pra valer
etc

(*) Este post estará sempre aberto para contribuições e complementações.


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Banana, Criatividade, Ética e Brasilidade - Fórmula da Despoluição da Água

Brasileira, 25 anos, pesquisadora em química, professora e filha de pais preocupados com o meio-ambiente. Um descrição pra lá de objetiva para descrever MILENA RODRIGUES, que acaba de receber o Prêmio Jovem Cientista 2006 por sua pesquisa: “Uso da casca de banana para o tratamento de efluentes radiotóxicos”.

milena.jpgEis a simpática MILENA, do Brasil para o Mundo, recebendo sua justa homenagem na Faculdade Oswaldo Cruz.

Mas as características que mais se sobressaem nela são justamente as subjetivas. Mistura de juventude, feminilidade, simpatia, criatividade, simplicidade e ética, com tempero de brasilidade inconfundível.

Mais do que isso, sabe compartilhar conhecimento sem pompa, sem se achar a tal. Tomara que continue assim. E olha que foi premiada e tá dando uma entrevista atrás da outra…

Sua participação no Programa Sem Censura, da TVE (reexibido em 30/abril) é um show de entrevista, arrancando um “tô impressionada com essa moça” da apresentadora LEDA NAGLE.

Vejamos alguns dos tabus que ela desconstrói, em 15 minutos de entrevista, não mais do que isso:

  • Ciência não é lugar de mulher;
  • Mulheres não são lógicas;
  • Inteligência feminina não é privilegiada como a masculina;
  • Lugar de mulher é em casa;
  • Pessoas comuns não compreendem a ciência;
  • É difícil popularizar a ciência;
  • TV não serve para fazer divulgação científica;
  • Soluções importantes são soluções caras;
  • Grandes problemas se resolvem de forma pontual (quando é justamente o contrário, pois a visão integrada é que permite abordá-los da forma correta);
  • Reciclagem é luxo;
  • Lixo é sempre um problema;
  • Poluição da água é problema ambiental apenas;
  • Aquecimento global é irremediável e irreversível.

Na rotina científica, o conhecimento (base teórica) conduz sua aplicação (prática), que retro-alimenta o conhecimento. A informação científica de ponta, resultante desse processo, fica então a disposição de quem souber ou puder empregá-la.

No lado ético, em geral, justificam-se os deslizes com argumentações do tipo “não se pode impedir o progresso”, “a ciência é neutra” ou “a humanidade não evolui sem a ciência”, esquecendo que “a ciência também não evolui sem humanidade”.

No caso da MILENA (veja bem, não a conheço pessoalmente, só pela entrevista, que infelizmente não gravei), parece que a rotina laboratorial em nada prejudicou sua sensibilidade ou amoleceu suas convicções, seus ideais, que ela coloca a serviço do seu potencial. Sua frase “a Faculdade me mostrou o caminho das pedras e a minha curiosidade me impulsionou a ir atrás dos meus ideais” exemplifica este ponto.

Na entrevista, expôs seu assunto, mostrou serviço, pediu o patrocínio, argumentou sobre os benefícios, alertou sobre a urgência e, mais do que isso, mostrou o valor da educação para estimular e libertar o pensamento, ao contrário da visão convencional, que se preocupa com fórmulas, decorebas e enfiar conteúdo goela abaixo.

Um libélulo, que merece ser visto e ouvido, de como a boa didática pode motivar e cativar os aprendentes e ajudar a superar a tão falada (e tão pouco compreendida) Crise da Educação Tradicional.

Já até pedi que coloque a entrevista do Sem Censura no Youtube, pra linkar aqui. Por hora, podem assistir a moça no laboratório, dando entrevista para o Programa Repórter Eco, e com aquele sutaquinho paulistano que agente conhece de loooonge :)

Quem disse que cientista tem que falar igual a jornalista de horário nobre, todo sério, sem expressão e sem maneirismos? Seria este mais um tabu que a moça veio para quebrar? Seria bom mesmo, porque a ciência fica muito menos pomposa (e muito mais atraente) assim!

Pra ganhar Nota 10 (rs.), só fica faltando agora criar um blog e vir pra blogsfera compartilhar suas idéias…


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Supermercado 2.0

Descobri, via The Backup-Brain, um vídeo israelita muito criativo, que realça palavras e conceitos comuns em tempos de Web 2.0, através da metáfora do Supermercado.

glumbert.com - Supermarket 2.0

Não explica, mas ilustra, o que já é bom. Para quem está boiando, qualquer síntese é útil.

Alguns conceitos para captura: Tags, Wikis, Comments, Wish List, Social Bookmarks, WYSIWYG, Ajax, Feed, Cookies, etc. E algumas marcas citadas MySpace.com, Flickr.com, Blogger.com, Del.icio.us, Orkut.com, etc.

Em relação a conteúdo, vi três abordagens: User Content, Free Content, Popular Content. O sutaque é um inglês tão arrastado que dá pra qualquer um pegar no tranco. Quem assistir, garanto que não vai se arrepender. É bem pequeno. Como disse, mais ilustrativo que explicativo!

Selecionei mais vídeos interessantes aqui

Metáforas - Umas Ajudam e Outras Atrapalham a Comunicação

Metáforas são as expressões que cruzam fronteiras e podem possibilitar ao conhecimento extrapolar limites. A palavra “quente” tem um sentido natural que representa a percepção do calor. Mas, na expressão “festa quente”, empresta seu sentido original para representar o efeito da animação, badalação, agito etc e tal. A palavra “fronteiras” que acabo de usar também é uma metáfora pois seu sentido natural seria fronteira geográfica e não linguística, como utilizei. Mais ao final do post.

Vejamos 1 exemplo de uso criativo:

Alfabetização Digital - Em geral, concebemos alfabetização relacionada a crianças apenas. Na educação de adultos, usa-se andragogia preferencialmente a pedagogia, por reconhecer que o adulto já possui uma cultura própria fixada, diferente de uma criança, cujo processo cultural ainda não se consolidou. Mas no caso da inclusão de adultos na cultura digital, faz sentido emprestar o termo “alfabetização” pois, de fato, é preciso novas sinapses e uma nova aculturação.

Vejamos 1 exemplo 2 exemplos de uso problemático:

Robôs Inteligentes - Para afirmar que um robô é “inteligente”, é preciso entender o que é inteligência. O Psicólogo Horward Gardner (1995) estudou 7 módulos de inteligência. Existem muitos mais. Se nos referimos à “inteligência operacional” - o aspecto pragmático da inteligência, relacionada a capacidade de realizar tarefas, faria sentido dizer que a máquina é inteligente. Mas se considerarmos a “inteligência auto-reflexiva” ou mesmo a “inteligência criativa”, já não faria mais sentido a metáfora.

Ponto G das Negociações - Tá certo que é tentador usar certas metáforas para, digamos, “apimentar” o discurso. Vi no Fantástico o Presidente Lula usando a expressão durante visita do Presidente Bush ao Brasil, e fiquei pensativo: ainda que ele saiba a diferença entre “relações comerciais” e “relações sexuais”, não teria ele sido traído por seu próprio inconsciente, acostumado a ver os EUA f**** com o Brasil?

Brincadeiras a parte, no estudo da etimologia, aprende-se que palavras são símbolos linguísticos e culturais, que evoluem no tempo enquanto absorvem novos significados. A flexibilidade e a criatividade de se utilizar palavras de uma área para representar novos conhecimentos em outra área, pode facilitar ou dificultar a comunicação e a compreensão.

Os empréstimos semânticos podem servir para ampliar idéias. Posso utilizar palavras conhecidas para enriquecer o sentido e agregar significado a novas e mais abstratas palavras, a fim de facilitar a compreensão.

Mas também se utilizam metáforas para artificializar realidades. Se eu falo em “inteligência artificial”, dependendo do sentido, crio duas expectativas: a de que “máquinas pensam” e de que “seres vivos são máquinas”, o que resulta decepcionante em uma investigação mais acurada.

O maior problema das metáforas é a imprecisão, que pode gerar distorções cognitivas, principalmente quando lidamos com o desafio de estudar novos paradigmas.


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