No post anterior, Comunicação e Conhecimento, investigamos o papel da comunicação como (meta)elemento na criação da rede sináptica e da forma de pensar.
Aqui investigaremos o papel assumido pela linguagem e de suas relações possíveis, na estruturação dos conhecimentos nas suas principais vertentes culturais.

As 7 vertentes básicas acima são formas humanas de conhecimento, expressão e compartilhamento de informações que interagem e diferenciam-se entre si.
Vejamos cada uma…
Senso comum.
O modo mais primitivo e natural de apreender o mundo e seus objetos. Surge com o desenvolvimento da Razão e da linguagem, a partir das sensações e emoções experimentadas. A linguagem ajuda a entender, explicar e comunicar os fenômenos do ambiente natural e humano. Tal compreensão inicial propaga-se horizontalmente (massificação) e perpetua-se verticalmente (de geração para geração) na cultura, em suas diversas sociedades. O senso comum e a cultura substituem, em grande parte, o instinto como fonte de segurança nas ações. Exemplo de genialidade empírica do senso comum é a pergunta do ex-jogador da seleção brasileira de futebol ao técnico brasileiro, depois de ouvir a explicação de como a equipe deveria jogar: ele questionou se o treinador já tinha combinado a tática com o time adversário. Exemplos de sabedoria do senso comum encontram-se em provérbios populares de várias culturas do Mundo.
Ideologia.
O senso comum também gera ideologias sociais, um dos tipos de ideologias de grupo ou de massa. A ideologia social cristaliza-se a partir de tradições e costumes de determinada sociedade ou setores sociais, sendo transmitida pela linguagem. A ideologia social é específica para o tipo de sociedade que a produz e reproduz, relacionando-se com seu modo de produção econômico ou funcionamento, a divisão de trabalho e a organização social. Produtos de tal tipo de ideologia são os preconceitos e as visões estereotipadas com que os membros da sociedade se vêem segundo seu papel social, e não enquanto indivíduos dentro de um processo dinâmico de evolução. Por exemplo, o lugar-comum de que o jovem deve aproveitar a vida sem se ocupar com assuntos sérios. Muitas vezes, isso é elogio da irresponsabilidade. Simultaneamente, é maneira de afastar os jovens das decisões políticas, retardando ao máximo as renovações resultantes do conflito de gerações. Diversão não significa apenas atividades exóticas ou perigosas. Aprendizado também diverte, especialmente o autodidatismo. Criam-se ideologias da juventude, separatismo servindo primordialmente a interesses mercadológicos – dividir para conquistar – visando atrair consumidores da moda, despreocupados quanto à utilidade em si das mercadorias. Como dizia Francis Bacon, conhecimento é poder.
Filosofia.
É impossível pensar a Filosofia sem pensar a linguagem e a etimologia. A Epistemologia – um de seus subcampos, é o método multifacetado que se propõe a pensar o conhecimento científico, quaisquer de suas áreas. Na lógica epistemológica, enfatiza-se a “validade”, que é a construção da argumentação, e não a “verdade”, que é a correspondência com a realidade. Obscuridades à parte, os que nunca estudaram minimamente a Filosofia, terão dificuldades de entender a sofisticação do pensamento humano. Entretanto, convém registrar, não se pode negar que o Pensamento Filosófico introduziu o preciosismo, o hermetismo e o elitismo. Ao se desvincular da realidade factual, internalizar seu discurso e seu jargão, e distanciar-se da experimentação, tende à circularidade no pensamento e a viajar no mundo das ideias. Tem horas que o Saber embriaga como cachaça. Em decorrência dos jogos internos de poder, das disputas de egos, a Filosofia se fragmenta, acaba por se dividir em Escolas Inimigas, subjugadas pelas Ideologias, que as diferenciam com suas linguagens características, em detrimento da busca comum pela expansão do conhecimento. Aos que apreciam a riqueza filosófica do Conhecimento Compartilhado, indica-se incrementar a experiência com o pessoal de Filosofia, mas atento ao jogo das “falácias lógicas” e do “argumento da força”. Debater conhecimento no clima do eu-venci-você-perdeu, é pedir para ser nocauteado. Melhor jogar a toalha antes.
Arte.
A linguagem artística dá vazão à fantasia, às emoções e ao subjetivismo para transmitir sua mensagem. Não existe a Arte, mas as Artes. A Grande Arte difere bastante da Arte Popular, por exemplo. É difícil explicar a popularidade do Pop, sem considerar seu papel social de entretenimento, distração e fuga do cotidiano, este percebido como gerador de estresse e opressão. Mas também não se pode desprezar como variável a tendência à acomodação, certos padrões de preguiça mental, definitivamente anuladores de potencialidades. O apreciador, quando compulsivo, digere novelas, dramas, pinturas, música, e vive na gangorra, oscilando entre o vício e a carência emocional, ora revivendo a mesma emoção, ora buscando-a para superar sua dor. O artista, muitas vezes, é o intelectual adormecido, que se dedica a explorar seus talentos, sua sensibilidade já mais do que aflorada. Ambos têm dificuldade em se perguntar se poderiam aprender algo com o debate, as Ciências e o Conhecimento Crítico, ou mesmo com as Filosofias. Na Indústria do Pop, a regra para os artistas bem-sucedidos é estarem endinheirados e famosos, não se esforçando em parar de repetir a si mesmos. Como se vê, o mundo artístico empurra para a vaidade e o egocentrismo, pois são atitudes retro-alimentadas na profissão pela legião de fãs, igualmente cultuadores de seus egos megainflados.
Religião.
A linguagem religiosa é codificada e consolidada nas sociedades humanas com a invenção da escrita, possibilitando sua institucionalização. Os textos religiosos, muitos dos quais não escritos por seus mestres, são alegóricos, relativos a realidades multidimensionais até então pouco conhecidas, tornando-se explicáveis para as massas. A interpretação das escrituras literalmente está a serviço da manutenção desse império milenar de fé. A ética religiosa, a pretexto do religare, acabou atuando como instrumento social de poder, infelizmente pouco explicando e muito explorando os temores e medos coletivos, sobretudo da morte, do desconhecido, do além. Embora admitindo que historicamente as Religiões se justifiquem, sendo útil para muitos como código de contenção da primitividade de certos impulsos atávicos, para os estudiosos, a mera conversão-clichê não exclui a necessidade bem mais séria, ulterior, de lidar com suas retratações e conciliações, passando a limpo seus reais princípios, valores e comportamento. Por ser conhecimento hierárquico e dogmático, mantém seu discurso incrivelmente formatado. Tem lá suas contradições, pois ao mesmo tempo que maximiza a intermediação da evolução alheia, assume postura vigilante contra qualquer autoria ou conhecimento crítico que aponte suas fragilidades. A maior delas, é excluir a possibilidade do novo conhecimento, tornando-se fechada em si mesmo, uma eterna defesa do modo de pensar primevo, mistificado e crédulo.
Ciência.
A linguagem científica baseia-se na razão, na clareza e na objetividade. Nem por isso se deve esquecer que os cientistas são falíveis, pois métodos podem ser falíveis. Às falhas, em geral, na Ciência, contrapõe-se a possibilidade de refutação. É assim que se renova, admitindo apenas verdades relativas e temporárias. A Ciência faz predições e demonstrações que o senso comum consideraria insensatas ou impossíveis: por exemplo, pilotar objetos mais pesados do que o ar. A Ciência usa a Heurística na elaboração de hipóteses para explicar e compreender fatos ainda desconhecidos – ao contrário do senso comum, que busca, a partir de ensinamentos populares tradicionais, unicamente a compreensão do já existente ou aparente. A linguagem científica também cria termos técnicos ou neologismos para designar novos fenômenos descobertos.
Autovivência.
Experiência de vida também é linguagem, cujo domínio importa para a qualidade das relações no grupo de convivência. O conhecimento haurido dessa fonte é um conhecimento sobre si mesmo, sobre comportamento, valores ou desejos. É um autoconhecimento, que se qualifica com o passar do tempo. Quanto maior a base idiomática, a cultura geral e a criticidade sadia do agente cognitor, mais tal fonte torna-se prioritária, e menos suscetível estará a pessoa à influências ideológicas. E isso distingue “pessoas que pensam” das que “são pensadas”. Quanto maior o grau da liberdade do pensamento do observador-experimentador, mais saberá selecionar o que existe de melhor em cada linha do conhecimento humano e sintetizá-lo para si, para seu amadurecimento e crescimento pessoal. Por exemplo, o realismo do senso comum unido ao rigor da Ciência, a sensibilidade da dramatização unida a comunicação social de dilemas morais, éticos e filosóficos. O Trinômio que sintetiza essa liberdade cognitiva-evolutiva: Vivência, Reflexão e Experimentação.
E você, caro leitor, já descobriu qual a linha de conhecimento que mais mexe com você? Por quê será?
Um abraço,
Marcelo e Alexandre
Technorati : conhecimento, saberes