Vejo muita gente intuindo sobre Consciência Coletiva, Nova Era, Terceiro Milênio entre outros chavões que tentam explicar a transição cognitiva em curso. Mas poucos se arriscam a explicar como isto afetará a ordem mundial -a Aldeia Global e os Eixos de Poder. .jpg)
Como exigência intelectual para os mais ansiosos, é preciso compreender que não dá pra tratar de um assunto árido como este em poucas linhas. Talvez com imagens (*), quem sabe?
Há muitos paradoxos. As sociedades avançam porque o conhecimento avança, porque você avança. Paciência, caro leitor. Se está com preguiça mental, este post não vai lhe agradar…
Para quem vai em frente, eu pergunto: O que foi o Renascimento, há mais de 4 séculos?
Justamente o movimento histórico de convergência que levou ao irrompimento de novos valores, centrados no desafio de formar novos sujeitos – cidadãos livres, ativos, protagonistas da história e não mais elementos passivos, submissos, vassalos – pensamento que propiciou novos tipos de associações entre indivÃduos e possibilidades de saber e conhecimento, negligenciados até então, produzindo mudanças no cenário das decisões mundiais, ao questionar as bases do poder em vigor: o Sistema Feudal Decadente e o Teoterrorismo da Inquisição Católica.
Nos dias de hoje, há uma super-expectativa em relação ao conhecimento técnico-cientÃfico e uma sub-expectativa negligente em relação ao conhecimento autoconsciente (autoconhecimento, conhecimento de si mesmo). A chamada “Ciência de Impacto” tornou-se um novo eixo de poder, pois alinha-se majoritariamente aos governos e orçamentos oficiais, e deles sobrevive.
A Ciência, a MÃdia e a Internet fazem explodir a quantidade de informações circulantes, mas o ser humano, via de regra, quando alfabetizado, continua sem saber como filtrar essa avalanche, como distinguir o que interessa do que não agrega valor, como separar o joio do trigo, como ser seletivo (no bom sentido).
Há uma clivagem entre o conhecimento das chamadas Humanidades e o conhecimento haurido pelas Ciências Exatas, subproduto do debate sobre o paradigma mecanicista – ainda dominante, mas em vias de esgotamento, e de uma nova forma para pensar a vida, o homem e o universo que o cerca. .jpg)
Todos sabemos que para minimizar as atuais lacunas entre Individualismo-Coletividade, Ser-Ter, EgoÃsmo-Solidariedade, Ocidente-Oriente, Fé-Razão, Filosofia-Ciência, entre muitas outras dicotomias, é preciso avançar no conhecimento multicultural, que implica rever os sistemas polÃticos e econômicos que sustentam uma convivência tão desigual como a que atualmente se verifica.
E rever sobretudo preconceitos e fronteiras do saber. Einstein dizia que “é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”. Mas seria então necessário um Novo Humanismo? Novo Antropocentrismo? Novo Renascimento?
Eis meu conceito de entresafra epistemológica: Uma série de evidências indicam que a mola-propulsora da Sociedade do Futuro está na Nova Epistemologia, que vai fundamentar um alicerce muito mais profundo sobre o ser humano – indivÃduo e espécie, capaz de inaugurar, assim espera-se, uma nova ética. .jpg)
A primeira evidência é que o edifÃcio da Psiquê Humana ainda não está completo, como dissemos. O Renascimento proporcionou um “andaime” neste edifÃcio – a busca do centramento sociopolÃtico dos sujeitos.
A partir de uma atitude multi-inter-transdisciplinar e transcultural, abre-se a possibilidade de avançar o estudo da mente humana, em seu potencial adormecido, sem os preconceitos de raça, cor, sexo e cultura. Um passo decisivo à própria compreensão da vida é que a perspectiva da evolução vá além de meras mudanças anátomo-morfológicas nos corpos biológicos.
(Re)centramento. Eis o nome provisório para o novo momento. .jpg)
O mundo moderno trouxe inúmeras fragmentações sobretudo a de identidades.
Pode-se dizer que a consciência do centramento atual é cognitiva – a nova fronteira do saber, o debate a ser enfrentado por aqueles para quem não basta apenas o saber (fatual, categórico) mas sim saber como souberam o que já sabem e como saber o que ainda não sabem (processual, fenomênico).
Todo brasileiro, por exemplo, bem que poderia orgulhar-se do trabalho em curso no Instituto Internacional de Neurociências de Natal, capitaneado por Miguel Nicolelis – um cientista brasileiro, que abre as portas para este estudo, no formato multidisciplinar e transcultural, que é o que interessa para o avanço do conhecimento. Lá se desenvolve ciência com enfoque social. Ponto pra eles !
A entresafra atual não é mera condição herdada do paradigma dominante. Vejo mais como uma transição necessária até que as abordagens epistemológicas amadureçam, o que permitirá reinterpretar a abundante fenomenologia disponÃvel. Não se muda a História, mas a visão que dela temos.
Com a “subjetividade”, a vilã do paradigma mecanicista, considerada variável indesejada no meio cientÃfico mais ortodoxo, a “realidade” desloca-se de eixo. Deixa de ser a realidade exterior, e torna-se o ponto de vista subjetivo último da realidade, antes exterior (dita “objetiva”), que passa a ter sentido só quando desfragmentada e filtrada por você, tornando-se portanto interior.
Ou seja, a realidade que interessa é a que você compreende e a que você está apto e disposto a moldar. Dito de outra forma, num mundo em evolução, ao fazermos escolhas, a nossa realidade, a subjetividade deveria (ou poderia) ser exaltada, por incorporar a moral e responsabilidade atribuÃda a cada um de nós, na construção dos alicerces pessoais e sociais do futuro.
Se a Ciência não se propuser a interagir com o Social, se não incorporar a dimensão Ãntima do sujeito cognitor, então será como o aleijão desavisado, correndo a maratona. Nesse sentido, podemos dizer que falta autocrÃtica ao cientista e, por extensão, à própria Ciência, ou a boa parte dela. .Jpg)
Se o ser humano possui a capacidade inata de acesso e trânsito entre várias dimensões e estados de consciência, tendo explorado muito pouco (ou quase nada) tais capacidades, bem como formas avançadas de cognição e (auto)compreensão, porque não estudar isso pra valer? Porque submeter-se à ditadura dos sentidos, quando idéias geniais ocorrem mesmo durante sonhos ou estados de contemplação criativa?
Porque não fazer como MASLOW (1954, 1968), um dos pioneiros da Psicologia Transpessoal, que se preocupou em estudar indivÃduos sadios, ao invés de indivÃduos doentes e psicologicamente instáveis, alicerce da Psicopatologia e de toda Psicologia ClÃnica? Quem são os sujeitos por trás dos estados de consciência elevados, em experiências culminantes, mencionados por MASLOW (1968)? O que têm para nos ensinar?
Ao invés de querer anular a “praga da subjetividade”, porque não aprender com as idiossincrasias dos sujeitos diferenciados – as locomotivas da evolução? Não seria mais inteligente que a classe cientÃfica se debruçasse sobre esses indivÃduos e seus saberes, aproveitando-se da alta capacidade de sua sÃntese crÃtica, de anos de labuta profissional, para avançar no conhecimento a respeito do saber intuitivo, do saber multidimensional?
De carona no ceticismo einsteiniano, há o desafio de saber como rever crenças profundamente arraigadas por milênios…
Neste ponto, apelo para o modelo khuniano (KHUN, 1962), segundo o qual após a “gestação”, verÃamos a “oposição” dos novos paradigmas seguida da “consolidação” de algum deles, em torno do qual novo consenso se estabeleceria, para dar suporte à ruptura paradigmática da magnitude da “superação” do materialismo, como realidade última.
O horizonte para um aporte cognitivo desta natureza já se pode conceber, pois a Ciência ensaia estudar o que está além dos 5 sentidos – os espectros de energia sutilizada que interagem a todo instante, produzindo sensações, cognição e memórias, de formas inusitadas e insuspeitas.
Um paradigma sustentado pela experimentação pessoal e pela valorização do amadurecimento permitiria rever a ética e a conviviologia de opostos desse nosso mundo caótico - uma generalização auto-evidente, penso eu.
A boa notÃcia é que há estudos sérios (poucos, mas relevantes) sobre o assunto, nas Universidades e mesmo fora delas, merecedores de crédito pelo pioneirismo. Nada mais ético que proporcionar o Direito à informação, o Direito à experimentação e o Direito à busca da verdade.
Se considerarmos a Aceleração da História, seria a quarta transição, não mencionada por Devezas & Modelsky?
É preciso que a nossa inteligência social seja capaz de questionar nossas “prisões intelectuais”, antes de questionar o poder instituÃdo. Pior que a ditadura do poder econômico é a ditadura da ignorância evolutiva.
É preciso também fugir das armadilhas reducionistas do tipo Individual x Coletivo, Desenvolvimento x Evolução, Criacionismo x Evolucionismo. Quem defende cegamente seu moral e seu esquema mental, na prática fechou-se para o saber. A este, a experimentação pessoal nada pode ensinar.
A dialética parece não funcionar nesta hora, privilegiando a heterocrÃtica em detrimento da autocrÃtica. Perde-se as sutilezas, como na crÃtica radical de uma doutorando em Biotecnologia Molecular Estrutural/USP. ao pretender desconstruir a Teoria da Evolução. Sobram verdades e argumentos aos dois lados, mas faltam as vivências pacificadoras.
Quer mais? Há muita ambiguidade no desenvolvimento, seja social ou cientÃfico. Avanços e ameaças se sucedem, ora contrapondo-se, ora contradizendo-se. E há a imensa lacuna a ser superada da velha ética, já falida, e da nova ética – a dos sujeitos autoconscientes, expoentes da evolução.
Questionemos: não seria um tremendo mata-burro a ambição cega, a exploração das fragilidades alheias e o nonsense anti-ecológico?
Apesar de meu balanço não ser favorável para a capacidade de governos e organizações de propiciar esta autocrÃtica e de trazer no curto prazo mais benefÃcios que mazelas aos sujeitos – a esta altura na casa dos 6,5 bilhões, quero dizer que sou mais otimista que a maioria dos caladões por aÃ.
Há um alinhamento por afinidade entre os que desconhecem seu poder (aos milhões) e os que o conhecem, mas usam mal: vivem relações co-dependentes de manda-quem-pode-obedece-quem-tem-juÃzo. Esta é a conclusão a que chego.
Poucos são os que disciplinaram o pensamento para uso do poder pessoal em benefÃcio do coletivo, seja escrevendo, pensando ou produzindo, cuja ação costuma ter profundidade e amplo alcance, ainda mais numa sociedade de hierarquias abertas (com exceções, naturalmente) e em rede, onde o conhecimento relevante está cada vez mais disponÃvel (quando bem filtrado).
Mas não vou gastar meus fosfatos cerebrais para saber quanto tempo vai demorar para essa ficha cair. Se já caiu pra você, está bom demais !!! Pensando bem, melhor gastar o tempo arregaçando a manga e colocando a mão na massa. E Então?
(*) As imagens que ilustram esse post são todas do artista ESCHER.