A Entresafra Epistemológica

Vejo muita gente intuindo sobre Consciência Coletiva, Nova Era, Terceiro Milênio entre outros chavões que tentam explicar a transição cognitiva em curso. Mas poucos se arriscam a explicar como isto afetará a ordem mundial -a Aldeia Global e os Eixos de Poder. paradoxos_(ESCHER).

Como exigência intelectual para os mais ansiosos, é preciso compreender que não dá pra tratar de um assunto árido como este em poucas linhas. Talvez com imagens (*), quem sabe?

Há muitos paradoxos. As sociedades avançam porque o conhecimento avança, porque você avança. Paciência, caro leitor. Se está com preguiça mental, este post não vai lhe agradar…

Para quem vai em frente, eu pergunto: O que foi o Renascimento, há mais de 4 séculos?

Justamente o movimento histórico de convergência que levou ao irrompimento de novos valores, centrados no desafio de formar novos sujeitos - cidadãos livres, ativos, protagonistas da história e não mais elementos passivos, submissos, vassalos - pensamento que propiciou novos tipos de associações entre indivíduos e possibilidades de saber e conhecimento, negligenciados até então, produzindo mudanças no cenário das decisões mundiais, ao questionar as bases do poder em vigor: o Sistema Feudal Decadente e o Teoterrorismo da Inquisição Católica.

Nos dias de hoje, há uma super-expectativa em relação ao conhecimento técnico-científico e uma sub-expectativa negligente em relação ao conhecimento autoconsciente (autoconhecimento, conhecimento de si mesmo). A chamada “Ciência de Impacto” tornou-se um novo eixo de poder, pois alinha-se majoritariamente aos governos e orçamentos oficiais, e deles sobrevive.

A Ciência, a Mídia e a Internet fazem explodir a quantidade de informações circulantes, mas o ser humano, via de regra, quando alfabetizado, continua sem saber como filtrar essa avalanche, como distinguir o que interessa do que não agrega valor, como separar o joio do trigo, como ser seletivo (no bom sentido).

Há uma clivagem entre o conhecimento das chamadas Humanidades e o conhecimento haurido pelas Ciências Exatas, subproduto do debate sobre o paradigma mecanicista - ainda dominante, mas em vias de esgotamento, e de uma nova forma para pensar a vida, o homem e o universo que o cerca. contrastes_(ESCHER).jpg

Todos sabemos que para minimizar as atuais lacunas entre Individualismo-Coletividade, Ser-Ter, Egoísmo-Solidariedade, Ocidente-Oriente, Fé-Razão, Filosofia-Ciência, entre muitas outras dicotomias, é preciso avançar no conhecimento multicultural, que implica rever os sistemas políticos e econômicos que sustentam uma convivência tão desigual como a que atualmente se verifica.

E rever sobretudo preconceitos e fronteiras do saber. Einstein dizia que “é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”. Mas seria então necessário um Novo Humanismo? Novo Antropocentrismo? Novo Renascimento?

Eis meu conceito de entresafra epistemológica: Uma série de evidências indicam que a mola-propulsora da Sociedade do Futuro está na Nova Epistemologia, que vai fundamentar um alicerce muito mais profundo sobre o ser humano - indivíduo e espécie, capaz de inaugurar, assim espera-se, uma nova ética. concavo_convexo_(ESCHER).jpg

A primeira evidência é que o edifício da Psiquê Humana ainda não está completo, como dissemos. O Renascimento proporcionou um “andaime” neste edifício - a busca do centramento sociopolítico dos sujeitos.

A partir de uma atitude multi-inter-transdisciplinar e transcultural, abre-se a possibilidade de avançar o estudo da mente humana, em seu potencial adormecido, sem os preconceitos de raça, cor, sexo e cultura. Um passo decisivo à própria compreensão da vida é que a perspectiva da evolução vá além de meras mudanças anátomo-morfológicas nos corpos biológicos.

(Re)centramento. Eis o nome provisório para o novo momento. fragmentacao_(ESCHER).jpg

O mundo moderno trouxe inúmeras fragmentações sobretudo a de identidades.

Pode-se dizer que a consciência do centramento atual é cognitiva - a nova fronteira do saber, o debate a ser enfrentado por aqueles para quem não basta apenas o saber (fatual, categórico) mas sim saber como souberam o que já sabem e como saber o que ainda não sabem (processual, fenomênico).

Todo brasileiro, por exemplo, bem que poderia orgulhar-se do trabalho em curso no Instituto Internacional de Neurociências de Natal, capitaneado por Miguel Nicolelis - um cientista brasileiro, que abre as portas para este estudo, no formato multidisciplinar e transcultural, que é o que interessa para o avanço do conhecimento. Lá se desenvolve ciência com enfoque social. Ponto pra eles !

A entresafra atual não é mera condição herdada do paradigma dominante. Vejo mais como uma transição necessária até que as abordagens epistemológicas amadureçam, o que permitirá reinterpretar a abundante fenomenologia disponível. Não se muda a História, mas a visão que dela temos.

Com a “subjetividade”, a vilã do paradigma mecanicista, considerada variável indesejada no meio científico mais ortodoxo, a “realidade” desloca-se de eixo. Deixa de ser a realidade exterior, e torna-se o ponto de vista subjetivo último da realidade, antes exterior (dita “objetiva”), que passa a ter sentido só quando desfragmentada e filtrada por você, tornando-se portanto interior.

Ou seja, a realidade que interessa é a que você compreende e a que você está apto e disposto a moldar. Dito de outra forma, num mundo em evolução, ao fazermos escolhas, a nossa realidade, a subjetividade deveria (ou poderia) ser exaltada, por incorporar a moral e responsabilidade atribuída a cada um de nós, na construção dos alicerces pessoais e sociais do futuro.

Se a Ciência não se propuser a interagir com o Social, se não incorporar a dimensão íntima do sujeito cognitor, então será como o aleijão desavisado, correndo a maratona. Nesse sentido, podemos dizer que falta autocrítica ao cientista e, por extensão, à própria Ciência, ou a boa parte dela. percepcoes_(ESCHER).Jpg

Se o ser humano possui a capacidade inata de acesso e trânsito entre várias dimensões e estados de consciência, tendo explorado muito pouco (ou quase nada) tais capacidades, bem como formas avançadas de cognição e (auto)compreensão, porque não estudar isso pra valer? Porque submeter-se à ditadura dos sentidos, quando idéias geniais ocorrem mesmo durante sonhos ou estados de contemplação criativa?

Porque não fazer como MASLOW (1954, 1968), um dos pioneiros da Psicologia Transpessoal, que se preocupou em estudar indivíduos sadios, ao invés de indivíduos doentes e psicologicamente instáveis, alicerce da Psicopatologia e de toda Psicologia Clínica? Quem são os sujeitos por trás dos estados de consciência elevados, em experiências culminantes, mencionados por MASLOW (1968)? O que têm para nos ensinar?

Ao invés de querer anular a “praga da subjetividade”, porque não aprender com as idiossincrasias dos sujeitos diferenciados - as locomotivas da evolução? Não seria mais inteligente que a classe científica se debruçasse sobre esses indivíduos e seus saberes, aproveitando-se da alta capacidade de sua síntese crítica, de anos de labuta profissional, para avançar no conhecimento a respeito do saber intuitivo, do saber multidimensional?

De carona no ceticismo einsteiniano, há o desafio de saber como rever crenças profundamente arraigadas por milênios…

o_que_ha_do_outro_lado_(ESCHER).jpgNeste ponto, apelo para o modelo khuniano (KHUN, 1962), segundo o qual após a “gestação”, veríamos a “oposição” dos novos paradigmas seguida da “consolidação” de algum deles, em torno do qual novo consenso se estabeleceria, para dar suporte à ruptura paradigmática da magnitude da “superação” do materialismo, como realidade última.

O horizonte para um aporte cognitivo desta natureza já se pode conceber, pois a Ciência ensaia estudar o que está além dos 5 sentidos - os espectros de energia sutilizada que interagem a todo instante, produzindo sensações, cognição e memórias, de formas inusitadas e insuspeitas.

encontro_de_opostos_(ESCHER).jpgUm paradigma sustentado pela experimentação pessoal e pela valorização do amadurecimento permitiria rever a ética e a conviviologia de opostos desse nosso mundo caótico - uma generalização auto-evidente, penso eu.

A boa notícia é que há estudos sérios (poucos, mas relevantes) sobre o assunto, nas Universidades e mesmo fora delas, merecedores de crédito pelo pioneirismo. Nada mais ético que proporcionar o Direito à informação, o Direito à experimentação e o Direito à busca da verdade.

Se considerarmos a Aceleração da História, seria a quarta transição, não mencionada por Devezas & Modelsky?

É preciso que a nossa inteligência social seja capaz de questionar nossas “prisões intelectuais”, antes de questionar o poder instituído. Pior que a ditadura do poder econômico é a ditadura da ignorância evolutiva.

É preciso também fugir das armadilhas reducionistas do tipo Individual x Coletivo, Desenvolvimento x Evolução, Criacionismo x Evolucionismo. Quem defende cegamente seu moral e seu esquema mental, na prática fechou-se para o saber. A este, a experimentação pessoal nada pode ensinar.

a_origem_(ESCHER).jpgA dialética parece não funcionar nesta hora, privilegiando a heterocrítica em detrimento da autocrítica. Perde-se as sutilezas, como na crítica radical de uma doutorando em Biotecnologia Molecular Estrutural/USP. ao pretender desconstruir a Teoria da Evolução. Sobram verdades e argumentos aos dois lados, mas faltam as vivências pacificadoras.

Quer mais? Há muita ambiguidade no desenvolvimento, seja social ou científico. Avanços e ameaças se sucedem, ora contrapondo-se, ora contradizendo-se. E há a imensa lacuna a ser superada da velha ética, já falida, e da nova ética - a dos sujeitos autoconscientes, expoentes da evolução.

Questionemos: não seria um tremendo mata-burro a ambição cega, a exploração das fragilidades alheias e o nonsense anti-ecológico?

olhar_para_si_(ESCHER).jpgApesar de meu balanço não ser favorável para a capacidade de governos e organizações de propiciar esta autocrítica e de trazer no curto prazo mais benefícios que mazelas aos sujeitos - a esta altura na casa dos 6,5 bilhões, quero dizer que sou mais otimista que a maioria dos caladões por aí.

Há um alinhamento por afinidade entre os que desconhecem seu poder (aos milhões) e os que o conhecem, mas usam mal: vivem relações co-dependentes de manda-quem-pode-obedece-quem-tem-juízo. Esta é a conclusão a que chego.

Poucos são os que disciplinaram o pensamento para uso do poder pessoal em benefício do coletivo, seja escrevendo, pensando ou produzindo, cuja ação costuma ter profundidade e amplo alcance, ainda mais numa sociedade de hierarquias abertas (com exceções, naturalmente) e em rede, onde o conhecimento relevante está cada vez mais disponível (quando bem filtrado).

Mas não vou gastar meus fosfatos cerebrais para saber quanto tempo vai demorar para essa ficha cair. Se já caiu pra você, está bom demais !!! Pensando bem, melhor gastar o tempo arregaçando a manga e colocando a mão na massa. E Então?

(*) As imagens que ilustram esse post são todas do artista ESCHER.

Hubble - Cosmologia ou Ufologia?

Somos mesmo minipeças neste imenso maximecanismo universal. De foto em foto, de missão em missão, há muito o que se investigar.

Que avanços instrumentais seriam necessários, por exemplo, para que o Hubble pudesse auxiliar na pesquisa de vida em outros Planetas? O “gargalo” é só instrumental ou seria moral também? É isso que quero abordar nesse texto…

Durante séculos, se cristalizou na cultura uma verdade conveniente - de que a Terra possui o monopólio da vida no Cosmos. Nada mais estapafúrdio - uma improbabilidade estatística, diante de tamanha imensidão cósmica. Nesse campo, a ciência apenas especula sobre a verdade.

As teorias onde a vida é obra do “acaso” não explicam nada. Tampouco resolve dizer que a vida é obra de uma “mutação provocada por certas condições”.

Dizer então que a vida (matéria animada) deu um salto ontológico direto da matéria inanimada (o início dos tempos, a grande explosão) é o mesmo que dizer que a inteligência, a autoconsciência e toda a complexidade orgânica deriva da pedra. É de “lascar” (sem trocadilho). Melhor dizer que nâo sabe…

Numa linha alternativa, tem a “Panspermia”, teoria que considera a vida tendo chegado a Terra através de micro-organismos espaciais, viajando junto com algum cometa que colidiu conosco há milhares de anos e que, aqui, teriam encontrado “condições especiais” para se desenvolverem. Teoria razoável, apenas, apesar de incorrer também em duas dificuldades: explicar como esses micro-organismos teriam surgido e explicar como derivaram na complexidade, como a conhecemos hoje.

É uma pena que esta civilização esteja imersa no antropocentrismo preconceituoso (problema moral, mais do que científico) para compreender hipóteses bastante razoáveis e plausíveis, de que: existem inúmeras formas de vida, e nem todas são biológicas (teoria dos corpos imateriais); os seres situados na escala evolutiva além do homo sapiens são raros neste planeta, o que não quer dizer que não existam ou não atuem anonimamente, de alguma forma; há inúmeros planetas habitados, sendo este Planeta apenas mais um; e que, além do mais, já é visitado (e auxiliado) por outros seres desde sua origem.

Só para lembrar, a Ufologia já fez aniversário de 60 anos. Não é mais mistério para quem se dispõe a estudar o que os governos não querem admitir. Há centenas de casos, depoimentos e relatos pessoais, que não podem ser classificados como mera fraude.

Contrastes: Em mais uma atitude vanguardista que lhe é peculiar, a França anunciou recentemente que abriria seu banco de dados de pesquisas ufológicas à comunidade, via Internet. Mas ainda há os que preferem a pseudo-segurança do auto-engano ao enfrentamento da verdade relativa de ponta.

Essa geração convive com uma pressão que é cada vez maior para que as informações “oficiais” sejam liberadas (em inglês).

Do ponto de vista psicológico, apesar da exploração do medo e do catastrofismo pelo cinema ficcional, também se pode alegar que foi esta mídia que em âmbito mundial tomou para si o papel da desensibilização das massas para a fenomenologia ufológica, na medida em que, de dose em dose, vai preparando as mentes para a catarse emocional do “primeiro encontro”.

Do ponto de vista da Exopolítica, que examina as implicações políticas da presença extraterrestre (em inglês), já se fala na vanguarda da “futura” política intergalática, que rege(regeria) o intercâmbio entre civilizações.

E, na perspectiva histórica, o correr do tempo favorece a dissipação dos inconvenientes para esta ou aquela testemunha ocular, em geral, “amordaçada à forceps” e vivendo à sombra deste ou daquele poder estabelecido.

Uma observação lógica: Seres mais desenvolvidos, de Planetas longínquos, têm(teriam) todas as razões para olhar com cautela e experienciar de longe a “quarentena cósmica” da Terra, pois além do problema dos anticorpos (ameaça imunológica) num contato mais ostensivo (de lá pra cá e daqui pra lá), existe também a triste realidade ética do modelo cultural em vigor.

Eis o que os “ilustres visitantes”, mais evoluídos, poderiam dizer sobre este Planeta, se aqui viessem para observar: a saga do homo sapiens registra surtos de desenvolvimento permeados por culturas imperialistas - o “vale-tudo” do poder - basicamente beligerante, autofágica, (auto)corrupta, de esgotamento de recursos e de desrespeito crônico e cínico pela vida.

Lembremos também da máxima científica: Sempre se pode encontrar evidências que caibam dentro das teorias já aceitas. Difícil é desbravar a nova evidência, para construir a partir dela, as novas teorias.

e_dai.JPGDaí que quem não desafia os paradigmas e as maneiras anacrônicas de pensar, arrisca-se a viver no escuro, como no “Mito da Caverna” (de Platão).

Só mesmo com muita arrogância para achar que o nosso modelo de vida seria referência universal para encontrar todas as possibilidades de vida em outros planetas / galáxias.

[UPDATE] Pesquisa Nacional sobre Percepção Pública em C & T - Ciência e Tecnologia, disponível no site do Ministério de Ciência e Tecnologia

Na pesquisa atual (2007, pág. 24), 41% dizem ter “muito interesse” em C & T. A categoria “Astronomia e Espaço” é a menos votada (7%, ou 2,8% da mostra total), apesar da categoria “Novas Descobertas” ser a segunda melhor rankeada (35%, ou 14,2% da mostra total).

Na comparação com a pesquisa anterior (1987, pág. 21), 31% se dizia “muito interessado” em C & T. Em relação ao interesse sobre a categoria “Ciências Extatas / Astronomia”, apenas 3% da mostra total disseram buscar informações nessa área.

O que essas informações sugerem? Que a avidez popular por novidades não abrange o Cosmos? Que não há nada no Cosmos que justifique curiosidade? Que apenas 3% das pessoas questionam sobre o sentido da vida apenas neste Planeta perante a imensidão do Cosmos? Ou ainda que não se espera da Ciência respostas nesse campo de estudos?

Quem pergunta quer resposta: Qual seria o “peso” da mistificação “oficial” sobre a vida além-Terra no resultado dessas pesquisas de percepção pública? Poderia estar relacionado de alguma forma?

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Sobre pontes e escadas - como fazer o conhecimento avançar?

Pontes são elementos concretos de ligação entre dois lados, inicialmente isolados. São elementos de acessibilidade, que permitem superar barreiras de distância. Se só existe uma ponte, pouco intercâmbio será possível. Com mais pontes, mais intercâmbios e mais interação.

E uma escada? Outro elemento de ligação e de acessibilidade, não para acessar lados distintos, mas patamares distintos, dentro do mesmo lado. Um patamar mais elevado é acessível a partir do patamar que o precedeu. E vice-versa.

e_dai.jpgDaí que, em outra escala, mais abstrata, em uma escala nem sequer física, o pensamento e seus derivados (cultura, informação, aprendizagem, conhecimento, memória, etc.), também carecem de “pontes” e “escadas” para se intercambiarem.

Tendemos a permanecer juntos com pessoas por quem sentimos afinidades. Os semelhantes se atraem. A Lei da Atração impera. Nossas escolhas afetivas se baseiam fortemente nesse componente. Por isso é tão difícil compreender aquilo que difere do nosso mundo mental, entender as diferenças, porque estão distantes “espacialmente” (em outro lado) e “topologicamente” (em outro patamar). É nesse sentido que metaforicamente só pode haver intercâmbio cultural através de “pontes” e “escadas” no pensamento.

O grande desafio (a pedra no sapato) em todos os tempos sempre foi compreender a questão da mente humana, abordada de forma diferente entre diversas culturas e sub-culturas (culturas dentro de culturas). Quem somos nós afinal, qual o significado da vida, da existência, o que é a consciência, qual a natureza da inteligência, como se dá a evolução, mais até do que especular sobre a gênese de tudo e tal. Há quem diga que foi em sete dias…

Atualmente, vivencia-se um dilema na ciência, super-hiper-ultra-especializada, que a despeito de seu grande desenvolvimento e sofisticação técnica, as Big Sciences deixam muito a desejar quando o assunto é a mente humana, pois carecem da visão integradora, à luz de um paradigma igualmente integrador, que possibilite abarcar então esta “nova” realidade.

Relativizar a separação entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível, um dos pilares do Positivismo, base do paradigma atual, é assunto comburente em certos círculos (e cátedras). Conceito esse válido e aceito (apesar das restrições) para estudar realidades concretas, torna-se frágil quando o objeto a ser estudado é o próprio conhecimento, a própria consciência. Ao ignorar o que sinto, como poderei estudar o que penso? Eis um fato da vida.

tem_logica.jpgOu será que deveríamos nos contentar com uma ciência sem consciência, uma barreira de jamais podermos estudar metodicamente e criteriosamente as realidades subjetivas que produzimos? Ou o que seria pior, desconsiderá-las só porque são subjetivas e não, válidas universalmente.

Do outro lado da ciência fragmentada, ou da ponte, como queiram, estão as chamadas Humanidades, cuja visão tradicionalmente é integradora. Nesta visão, o ser humano não é só máquina, como revelou a ciência. Genes, células, órgãos e tecidos estão lá, mas sob controle de um meta-elemento que os anima (alma, que vem do latim “ânima”).

Pois bem, eis uma difícil questão: a compreensão meta-biológica da vida, o sentido da existência em um planeta refém da própria cultura autofágica da maioria de seus hóspedes, depende do paradigma que se usa. Paradigmas são modelos mentais, consensuais e, ainda que durem milênios, são finitos. A partir de uma revolução paradigmática em diante (no sentido Khuniano), sustentar o velho paradigma é que se tornaria uma anomalia.

Em períodos de Ruptura Paradigmática iminente, como o que vivemos atualmente, inaugurado no início do Séc. XIX com o fim da ilusão materialista como realidade última, quanto mais se precisa de intercâmbio, mais evidenciam-se duas polaridades de pensamento: o conservadorismo e o vanguardismo.

O conservador vê nas “pontes” uma ameaça ao status a que se acostumou, e trabalha para destruí-las. Vê imposturas em tudo que é canto e, com medo de mudar, sobe e desce a mesma “escada”, especializando-se em cada um dos patamares, desde que se mantenha preso à tradição. Só de pensar em ter que rever todas as suas teorias, todo seu saber e, por extensão, todas a história humana, a luz de novas teorias, prefere mesmo que tudo continue como está.

Já o vanguardista, em geral, cansado de subir e descer a mesma “escada”, adora construir “pontes”, que permitam questionar sua cultura natal, seu saber local e sua filosofia herdada porque sabe que, oxigenando suas idéias, contribui concretamente para o avanço do conhecimento integral. Não se convence facilmente com a noção de que sua cultura é a melhor, e “ganha o mundo” para ver o que mais encontra.

Para mim, a transdisciplinaridade é o grande ensaio, seria o principal movimento capaz de reunir os vanguardistas, com a força de ser uma “escada” e uma “ponte” para a transculturalidade e a cidadania global.

Eis, de volta, a questão central do post (e do próprio blog): se o avanço do conhecimento se dá pelo (auto)conhecimento, facilitado pelo vanguardismo, porque o vanguardista ainda precisa encarar a condição de andar na contra-mão, em contra-fluxo, sempre visto com olhos de desconfiança?

E mais umas perguntinhas inquietantes: Por que não se poderia conceber uma sociedade aberta à mudanças? E por que ao tocar em assuntos polêmicos logo aparece alguém para discriminar e chamar de herege, sonhador, doidivanas, sincrético, utópico e tal?

dica.JPGPara os que nunca se cansam de aprender, eis alguns movimentos interculturais em andamento. Identifica-se com algum?

IASB - Centro de Intercâmbio Acadêmico Sino-Brasileiro - com a missão de realizar intercâmbios culturais e acadêmicos entre a China e a América Latina.

Mind and Life Institute - Trabalho em colaboração e parceria em pesquisas entre a Ciência Moderna e o Budismo.

ISSSEEM - Science And Energy Medicine - Força tarefa de “cientistas com inclinação mística” e “místicos com inclinação científica”, conforme anunciado no site.


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Qual o Valor da Ciência sem a Filosofia?

Em matéria de Epistemologia, é preciso realmente Estômago e Mente Aberta para enfrentar certos debates que surgem. Vejamos algumas “pérolas” colhidas em um post no site de rerum natura, que se propõe a falar da Natureza das Coisas, conforme indica o subtítulo. aviso.jpg

Não me interessa em nada expor o nome de quem quer que seja (até porque se está na Internet, já está exposto mesmo). Nem estou eu aqui chamando ninguém de ignorante, mas trouxe o exemplo por ser didático. E porque acho que a Internet não resolve as necessidades de se enfrentar o real debate, cara a cara, argumento a argumento, com calma, e aprofundar nos limites do paradigma atual para que se possa avançar no conhecimento, a começar do objeto mais sofisticado, a Mente Humana, o agente cognitor. Vou citar apenas os trechos que acho mais emblemáticos da “luta insana” travada nos bastidores da ciência atual para, ao final, como sempre, tecer meus comentários

Estudo de Caso:

O post Consciência Sem Ciência (autor é Carlos Fiolhais, um Físico) Inicia o post comentando o livro “Revolução da Consciência”, de Francisco Di Biase e Richard Amoroso, como sendo um excerto de outro livro, mais parrudo, publicado em 2000. Com certo sarcasmo, defende que se trata de pseudo-ciência, citando pelo índice GOSWAMI e SHELDRAKE, dois dos autores de ciência mais criticados que eu conheço, para em seguida, descer o sarrafo na Psicologia Transpessoal. Até aí, tratava-se da posição dele apenas…

Comment (autor Paulo, simpatizante da filosofia budista)
Cita dois vídeos de Alan Wallace, Ph.D. que, segundo as informações do próprio vídeo, estuda Budismo desde 1970 e vem trabalhando na integração da prática contemplativa budista com a ciência ocidental, a fim de fazer avançar os estudos da mente. Paulo também deixa claro que acha reducionista colocar pseudo-ciência e estudos sérios no mesmo saco, motivo pelo qual citou os vídeos como referência séria. Paulo também refere-se à 14º conferência Mind and Life, em Dharamsala, encontros interculturais anuais (e também bianuais) entre Dalai Lama e Cientistas Ocidentais. Este foi o único comment do Paulo, mas quis citar para mostrar o rumo que a discussão poderia ter seguido, se não entrassem no circuito os dois comentaristas abaixo…

Comment (autor Anônimo, crítico da Filosofia, interessado na praticidade)
Cita um texto, que não vem ao caso, para depois usar um argumento contra o que ele chama de “subversão da ciência”, ou seja, a introdução do observador na fenomenologia quântica.

Comment (autor JC, da área de Quântica)
Para mostrar uma escorregadela de Anônimo, argumenta que ele não sabe o que diz tanto quanto os autores da pseudo-ciência (post inicial) - “que deve resultar de uma profunda junção confusa entre ignorância e pretenciosismo”. E parte para explicar porque não é subversão da ciência. Em relação ao problema da consciência, afirma em seguida que “qualquer pessoa, com o mínimo de formação filosófica, percebe que não é um objecto de estudo que possa vir a ser completamente determinada no âmbito da ciência”.

Comment (autor Anônimo, crítico da Filosofia, interessado na praticidade)
Sobe o tom da resposta, dizendo que “Se lesse o link, teria evitado interpretar mal as minhas palavras. Por outro lado, a forma iletrada como redige o seu comentário só revela a profunda confusão que vai na sua cabeça”. Ainda anestesiado com a grosseria inicial, prossegue raivoso “Posto isto, deixe-me apenas dizer-lhe que se um hipopótamo está a observar um fenómeno, você, apesar de parecido, também deverá ver a mesma descrição do fenómeno”. Mais adiante, deixa clara sua posição positivista, “a de que o objecto da ciência deve ser independente do observador, por construção e por definição. Ao tentar integrar o observador de forma activa na descrição do fenómeno, estamos a fazer treta”. E, ao final do comment, diz que “A visão radicalmente experimentalista é a única coisa que financia a ciência, é a única coisa que faz sentido à ciência, é a definição de ciência.”

Comment (autor JC, da área de Quântica)
Novamente discorda de Anônimo, e em dose sarcástica desfere: “É incrível que [...] exista ainda quem não tenha despertado do seu sono dogmático. O objecto de conhecimento empírico é sempre subjectivo. Qualquer aprendiz de filósofo lhe pode ensinar isso. Aliás, defender que o sujeito epistémico (o tal observador) não participa activamente na descrição (formal) do fenómeno é, no mínimo, um contra-senso. Vejo que o Anónimo falha por completo em perceber o problema da consciência na Física Quântica”. Mais adiante, JC comenta igualmente subindo o tom, critica os disparates da “Visão radicalmente experimentalista como sendo o que dá sentido à Ciência”. E arremata com a paulada final: “Desculpe, afinal vejo que não só não percebe o problema da consciência na Física Quântica, como tem também uma total ignorância por toda a epistemologia. Ou melhor, por toda a metafísica. Por favor, se não quer andar a fazer treta, não se meta nos fundamentos de qualquer ciência”.

Comment (autor Anônimo, crítico da Filosofia, interessado na praticidade)
Inicia sua reação assegurando que conhece a Mecânica Quântica, mas que seu conhecimento não o leva a dissertar “porque a interpretação começa a sair fora do âmbito que interessa, e o âmbito que interessa é poder aplicá-lo à realidade, e como tal, a realidade tem de ser tomada como exterior ao observador, sobre pena de, em caso contrário, não termos descrições fenomenológicas capazes de produzir resultados sobre uma realidade”. Neste ponto deixou clara sua visão utilitarista de ciência, visão prática, que já havia sinalizado anteriormente ao relacionar financiamento da ciência ao experimentalismo instrumental. Em seguida, Anônimo reforça sua visão a favor da praticidade argumentando que “quem utiliza a mecânica quântica não costuma se preocupar com essas questões interpretativas hard-core, pelo simples facto de que não levam a lado nenhum [...] perder tempo em teorias que não servem para nada”. Adiante, mais algumas pérolas: “possibilidade de a mecânica quântica poder vir a ser reformulada eliminando a necessidade de interpretações tão inquietantes”. A uma dessas inquietações ele chama, em seguida, de “efeito colateral”, ao argumentar que “A Mecânica Quântica não nasceu porque o Bohr, o Heisenberg e o Schrodinger andaram a ler Kant e acharam que deviam incluir o observador no sistema. Que o observador acabou por vir ligado ao sistema físico, foi um efeito colateral”.

Comment (autor Anônimo, crítico da Filosofia, interessado na praticidade)
Anônimo prossegue com o que já virara um desabafo, pois era seu terceiro post seguido. Cita mais duas inquietações: A “Teoria do Caos”, que ignora variáveis físicas mas cumpre seu papel, segundo ele, de ser prática e de ter resultados, apesar de não citar quais. A outra inquietação referida é sobre a “descrição de modelos de realidade”, que seria inquietante na medida em que rompessem com a dupla termodinâmica - mecânica quântica, supondo se pudesse modelar a realidade a partir de modelos não-atomistas que pudessem também, alternativamente, se casar com a termodinâmica, considerada por ele o fiel da balança e modelo de certeza científica.

Comment (autor JC, da área de Quântica)
JC novamente sobe o tom: “Podia ter isolado outro parágrafo qualquer do seu texto, que a conclusão seria a mesma: não sabe nada sobre o que está a tentar dizer. Nem em relação a Kant, nem em relação à Quântica (pode até saber as contas - eu também sei - mas não entende, certamente, nada delas). Enfim, mais um exemplo de quão acre é a mistura da ignorância com o pretenciosismo”. Em seguida, JC cita duas bibliografias, que, segundo ele, é extensa e recomenda ao outro “experimentar, para começar devagarinho, por ler…”. Haja sarcasmo!

Comment (autor Anônimo, crítico da Filosofia, interessado na praticidade)
Anônimo responde em tom mais alto ainda, que em matéria de “ser pretensioso, você (o outro) é imbatível quanto a isso”. E sai-se com o argumento de que não vai ler porque não tem tempo…

Comment (autor JC, da área de Quântica)
JC mais uma vez alfineta: “tem tanta falta de tempo que nem tem tempo para crescer. Pobre coitado. Olhe, enfim, continue a frequentar - como tem tido tempo para o fazer - este estabelecimento de ensino”.

Comment (autor Anônimo, crítico da Filosofia, interessado na praticidade)
E Anônimo, provavelmente furioso, ainda se deu ao trabalho de responder, em duas etapas. Na primeira, incluiu um parágrafo inteiro de xingamentos e chamando mesmo para a briga, que eu não vou reproduzir aqui, apesar de ter guardado o print screen original da baixaria. E na segunda etapa, deve ter se acalmado porque deu uma resposta sensata que ao mesmo tempo é uma crítica inteligente. Reconhecendo-se vencido no debate-embate, pergunta ao opositor que ganhos ele teve em menosprezar o adversário, sem demonstrar nenhuma atitude construtiva. E fechou sua fala, até o momento sem resposta, concluindo que seu opositor não era “pessoa decente, porque não tem o mínimo trato”.

Ufa! E pensar que tudo isso aconteceu no intervalo de 24horas, de 11 de abril as 16h25, quando o post foi escrito, à 12 de abril, as 17h49. E de lá pra cá, mais nada. Mais curioso ainda é que o autor do post ficou mudo, só assistindo a briga que ele mesmo iniciou.

Depois do triste episódio escaneado, para não ficar apenas no lado ruim da coisa, trago aqui um contraponto, um rol de três sugestões de um dos co-autores do blog citado, o Desidério Murcho, Filósofo, em palestra no Porto:

1- Uma aprendizagem de confrontação de teorias que competem entre si (que é precisamente o oposto do que se ensina nas escolas e universidades de hoje).

2. Maior cooperação entre cientistas da vida e filósofos. Estaria subentendido nessa frase de Murcho uma referência ao famoso “Duas Culturas”, de C. P. SNOW ou “Três Culturas”, como defende o Prof. Ianni?

3. A Ciência vai deparar-se com problemas sobre a realidade e esses são o objeto de estudo da Filosofia. Alerta aos cientistas, para deixarem, por exemplo, de pensar que a metafísica é uma espécie de religião, de misticismo, de espiritismo, segundo as opiniões corriqueiras de cientistas ouvidos por ele.

tem_logica.jpgDesvendar as fronteiras do conhecimento, é assunto que interessa a toda a humanidade, cientistas e não-cientistas.

Aos cientistas, como diria o Filósofo, a lição número um é combater em si mesmo o monoideísmo radical da visão materialista (uma ilusão paradoxal milenar, como Físicos agora bem o sabem), para avançar deste ponto e penetrar nas Questões em Aberto na Ciência. Aprendizagem se faz com postura pluralista, diria o Filósofo, atento às questões subjetivas do conhecimento.

Já o cientista, cético profissional, diria ao Filósofo que muito da sua postura relativista é na verdade retórica e semântica, senão filosofice, o que não ajuda em nada na meta de se chegar a verdades universais, aceitas de uma maneira geral pela ciência como “a informação certa”, apesar de reconhecidamente temporária, cujas inquietantes aulas de epistemologia do Filósofo, pelo visto, não ajudariam a esclarecer. E ainda acrescentaria (o cientista), confiante na tradição de ciência a que se acostumou, que esse papo de pós-modernismo está a serviço mesmo da conspiração anti-científica, conforme Sokal e Bricmon supostamente denunciam.

Para quem ainda não se convenceu dessa problemática antiga, e deseja mais uma dose desse confronto, eis a versão portuguesa, no post Ainda a Guerra da Ciência. Por sua conta e risco…

e_dai.jpgDaí que eu pergunto: é possível conciliar estas posições?

Muito me intrigou a relação de autores do de rerum natura, que citei inicialmente: um físico, um filósofo, uma pedagoga, um matemático, uma química e dois biólogos. Seria isso um laboratório de Mente Aberta ou de Convivência Pacífica? Ou ambos?

Pra fechar este post indigesto (reconheço), mas necessário (suponho), nada melhor que uma reflexão nada relax do argentino Jorge Luis Borges: “todo toca todos” :-)


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