Perspectivas da TV brasileira - garimpar vale a pena
Existe vida útil na TV brasileira em 2008?
Muito além da centralidade de celebridades e seus programas-estrela, o que me importa é perceber o que não dá tanto ibope, mas que tenha valor intrÃnseco, que seja capaz de extrapolar o modelo e por isso inovar.
Em Marketing, estrela é o produto badalado, do qual se espera muito, onde há grande alvorosso, não necessariamente o que rende mais lucros. Já a inovação é a possibilidade de avançar no modelo, de lançar algo que ninguém tem, de sair na frente e se destacar pelo pioneirismo. Nem toda invação vira estrela e nem toda estrela é invadora. Meu desafio intelectual de hoje é estudar isso.
As TVs Abertas no Brasil são vÃtimas há 5 décadas de uma contradição intrÃnseca. Concebidas como veÃculo de comunicação de massa, são concessões estatais estagnadas no paradigma da Sociedade de Consumo do pós-guerra. Há quem pergunte se, fora o jornalismo, realmente prestam algum serviço essencial à população…
Minha percepção é que as TVs arriscam pouco. Importam modelos. E repetem, repetem, repetem. Prevalece a crise de criatividade. Ao visarem um entretenimento barato, fútil, de consumo imediato, nivelam por baixo suas programações. Quase sempre, apelam e compactuam com a baixaria o que, para todos os efeitos morais, afasta anunciantes e patrocinadores. E daà perdem receita e, no longo prazo, se endividam.
Só mesmo a lógica do quanto-pior-melhor para fazer de um Big-Brother a sensação do ano. E o povo ainda paga com as ligações no 0300. Esse é o Brasil do vale-tudo.
Enquanto o LUCIANO reflete o papel da mÃdia na baixaria, eu completo o tripé com a miserável relação anunciante-celebridade, que só faz eternizar o circuito-viciado e de dependência mútua.
E o povão? Invariavelmente, ardilosamente e historicamente manipulado no labirinto da Indústria Cultural…
Tábua de salvação? O messianismo dos programas vaca leiteira, Futebol por exemplo, que tem chamada regular no horário nobre, um verdadeiro campeão de audiência nas noites de 4ªf. e tardes de domingo.
Para além do mundinho das celebridades de TV, tenho observado um tipo de programa-tendência que gostaria de destacar: na linha da auto-ajuda, para adultos e para adolescentes. Vou comentar ambos:
Formato auto-ajuda adulto (pessoas reais, problemas reais) - Essa linha é a antÃtese da ficção e do novelão. Nada de celebridades, de aparências ou de caricaturas. Apenas pessoas e seus problemas. As profundezas da natureza humana, os dramas, as dificuldades de relacionamento, as carências e as pequenas angústias do dia a dia.
Para alguns, o formato é o buraco-sem-fundo da super-exposição. Para outros, meros programas apelativos, classe “C”, ancorados na curiosidade mórbida com as fragilidades das pessoas. Há ainda os que vêem nesses programas uma catarse-morna, a Tele-ajuda Modernizada, versão amena dos Telebarracos de outrora, conveniente para o horário vespertino.
Para mim, que gosto de Estudar os Meandros da Psiquê Humana, peso na balança e vejo o retrato ao vivo de uma sociedade que antes só conhecia pelo andei-lendo-que ou pelo ouvi-dizer-que.
Quem sabe emergirá do povão o ensaio da autocrÃtica coletiva? Bom seria não mais abrir o jornal e confundir os Casos de PolÃtica com os Casos de PolÃcia. Já imaginou os polÃticos, administradores e legisladores, que não conseguem nem passar a limpo sua própria ética, assistindo e se inspirando nos Casos de FamÃlia, programa do SBT, na grade da emissora desde 2004?
No formato talk-show, apresentado pela jornalista e duble de psicóloga popular Regina Volpato - a musa das 17h30, atrai audiência majoritária de mulheres. Uma espécie de tribunal de autocrÃtica e de conciliação para pequenas causas improváveis.
Os “convidados” entram mudos, mas não saem calados. A maioria entra insatisfeita e sai emburrada, reforçando o já esperado comportamento de resistência à s mudanças. No entanto, ganha a pessoa com a reflexão sobre sua problemática e ganha o público com o debate. Não se pode esperar uma catarse profunda, nem seria o caso, mas um embalo no (auto)questionamento. Se a pessoa depois vai dar continuidade, daà é com ela.
Pontos fortes: a mediação sóbria e contida da apresentadora-facilitadora, uma excessão dentre os Egões que povoam a TV; a presença de pessoas visivelmente humildes que, ao desbloquearem a conversação, podem até abrir o caminho da conscientização; a participação “ostensiva” do auditório sem-papas-na-lÃngua; e o(a) psicólogo(a) convidado(a) que, ao final, analisa os “causos” e sugere o encaminhamento.
Pontos fracos: a questionável validade de se discutir problemas pessoais, em público; o questionável constrangimento eventual como fórmula de aprendizagem aperta-pra-ver-se-pega-no-tranco; e a igualmente questionável ética da solidariedade caça-nÃquel.
Formato auto-ajuda jovem - Outra linha que me agrada é a que coloca voz na boca dos jovens. O megamal da Sociedade de Consumo é descambar para o conformismo-derrotista juvenil. Diante do cenário de alienação, louvável são as iniciativas de debate entre essa galera.
Jovem é outro papo, já dizia Chico Anysio. Jovem é um vir-a-ser adulto. É próprio do jovem querer navegar por mares não navegados. Quer descobrir e descobrir-se. Precisa de espaço para falar tanto quanto para ouvir.
Nesse sentido, meu voto vai para o Atitude.com, programa da TV Nacional apresentado pela jornalista baianÃssima Liliana Reis (âncora) em parceria com PatrÃcia Pinho (externas). Quem vê a desenvoltura da moça, ao vivo, pensa que ela nasceu dentro da TV. Não imagina que a dita cuja é poliglota, autora precoce e inquieta, que adora viajar e “mochilar” mundo afora.
Em entrevista, ao falar de suas experiências de vida, relata que aprendeu a transformar sua agitação em diferencial. A apresentação do programa “Na Carona” foi lhe modificando, aproximando-a da realidade das pessoas. Eis uma ex-’urbanóide rockeira’, de cabelo laranja, que precisou da TV para se melhorar e se encontrar. Quem diria!!! E nessa eu queimei minha lÃngua, pois sempre considerei que a TV era a vilã da modéstia natural das pessoas.
Sobre o Atitude.com, o formato do programa não nega o público-alvo: temas de interesse jovem, convidados descontraÃdos, entrevistas curtas e muita, muita música.
Pontos fortes: a simpatia e a autenticidade da apresentadora-âncora, que gosta e convida todo tipo de banda jovem, dos mais barulhentos aos mais “cabeças”; a participação do público de casa, via telefone e internet; modo de falar e linguagem giriesca, mas objetiva, sem tabus e não-me-toques, apropriada ao público que se destina; entrevistados convidados que trazem seus depoimentos; e a posição democrática necessária para o jogo do argumento-contrargumento, sem briga de força.
Pontos fracos: pra não dizer que não critiquei nada, o figurino insistentemente esdrúxulo da moça, em clima de “festa de arraiá”. Tá certo, já sei, já sei, sem censura…
Dito isto, eu pergunto: e você, concorda, discorda, ou muito pelo contrário?

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