500 Anos em 5 CapÃtulos – a SÃntese
1- Já na carta de apresentação, Pero Vaz de Caminha, aquele da História, faz nosso primeiro merchandise. Mesmo sabendo que a ação de marketing do “nesta terra, em se plantando, tudo dá” alimentava a ambição portuguesa, cristã-missionarista por um lado, e polÃtico-exploratista por outro, arrisco a dizer que nasceu aà a semente do inconsciente coletivo nacional que se crê o herdeiro do futuro.
2- No Tempo da Côrte (1808), o primeiro jornal. Hipólito da Costa, o ideólogo que distribuÃa clandestinamente por aqui o noticioso, polÃtico e independente Correio Braziliense (com “z”).
De estilo opinativo e doutrinário, sua qualidade intelectual, polÃtica e humanista não permite questionamento quanto à influência na realidade portuguesa e brasileira. A estratégia de publicá-lo em Londres, permitia driblar o “perigo de falar dos homens poderosos” e as “dificuldades operacionais” de uma publicação no Brasil da época.
Seus ideários iluministas estão por trás do “independência ou morte” e até da interiorização da capital. Eis, enfim, um jornalista que atuava a par e passo com sua época e seu tempo histórico.
3- InÃcio do Século XX. PerÃodo de guerras mundiais. Lá fora, o Cinema Hollywoodiano crescia, no vácuo europeu. Quanto mais jovens morrendo nas batalhas, mais musicais, comédias, fanfarras e fantasia para o povo aguentar. Por aqui, na década de 40, vivÃamos o sucesso dos romances e histórias açucaradas – as chanchadas, onde o público podia ver no cinema o rosto dos Ãdolos musicais, que só conhecia pelo rádio, o sistema de comunicação de massa da época.
Em 1946, Getúlio Vargas assina decreto obrigando a exibição de pelo menos três filmes brasileiros por ano, e estabelece as bases para a ação da censura que seria usada adiante pelos governos militares.
4- Um salto na História e chegamos a 1998. As ditaduras caÃram. A Internet já existe. Os tempos são outros, os problemas nem tanto. A censura continua, mas disfarçada, incorporada à máquina capitalista midiática. A dificuldade operacional cessara, mas a concentração dos canais era tanta que a barreira para os novos entrantes inviabilizava aventuras nesse mercado.
Neste ano, começam a crescer rapidamente a mÃdia alternativa e as primeiras comunidades virtuais em torno dos sistemas de publicação autônoma (“Web Log” ou simplesmente “Blog”).
Dan Gilmor, autor e ideólogo do “Nós, a MÃdia” (via Google Blogoscoped, em inglês), considera arrogante as “aulas” da velha mÃdia (Big Media) ao pretender dizer o que é e o que não é notÃcia.
Na liberdade compartilhada da nova midia, o noticiário do futuro funcionaria mais como “conversas” (em inglês).
5- Outro salto na História e chegamos ao momento atual, na véspera do bicentenário do Correio de Hipólito (2008). A TV sexagenária vive ainda seu apogeu, mas as novas mÃdias se multiplicaram incrivelmente, trazendo consigo a “explosão” e a “fragmentação” da informação.
A melhor ferramenta de publicação de blogs já criada completou 4 anos de existência. Os pensadores que sempre clamaram por uma mÃdia que permitisse a cidadania crescer, enfrentam agora “inimigos” de outra natureza:
1.) a (auto)exclusão – Lei do 1% na relação de autores x comentadores x leitores (em inglês) – que é um passivo da cultura de massa, onde as pessoas se acostumaram a consumir informação como mercadoria pronta, e não como processo de elaboração do pensamento;
2.) a exclusão digital – Que engloba falta de equipamentos, conhecimentos técnicos e falta de polÃticas de acesso, o que ainda inviabiliza a verdadeira mÃdia democrática.
Um paradoxo radical – a Análise
A TV, herdeira de audiência das demais mÃdias tradicionais, que sem sombra de dúvidas ainda é a principal interface da comunicação na Sociedade Moderna, tem feito, historicamente, uma opção pela cidadania negativa.
Ao reagir aos escândalos polÃticos e de corrupção que se sucedem, tal qual capÃtulos de novela, acaba produzindo dois efeitos perniciosos (ingenuamente?): 1.) a audiência cativa de escândalos - produtora de letargia, indiferença e desestÃmulo polÃtico do povo, sem esquecer do estresse pela fadiga noticiária; 2.) a distorção da agenda - que “rouba” o espaço para os grandes debates, as macro-análises, as macro-oportunidades e as macro-renovações fundamentais.
A nova Cultura da MÃdia
Não vejo saÃda para os pensadores da comunicação que insistirem em ignorar um fato óbvio: a Era da Internet e do Saber Globalizado vai universalizar a ânsia natural do ser humano em buscar informação útil, em crescer como indivÃduos, em compartilhar idéias, na busca de sentido para suas vidas.
E é bastante razoável que esse movimento vá além das “fórmulas prontas ou já conhecidas”. Lefebvre dizia que a História se repete, mas como “cópia e colagem”, fraudando a si mesma. Os verdadeiros movimentos socialmente transformadores precisam de inovação e originalidade.
Muitos jornalistas e comunicadores vêem a “opinião” como interferência na notÃcia. Parece ser esta uma herança positivista no paradigma do jornalismo atual. Levado ao pé da letra, as notÃcias perdem em profundidade, contexto, valor social e associação de idéias. A prevalecer esta ética, suponho, reforça-se a ansiedade pela informação, que só faz aumentar a cada dia, sem valorizar o que realmente importa: a sÃntese esclarecedora e a reflexão ponderada.
Eu reflito, tu refletes, nós refletimos. Por que eu me furtaria disso, já que a interatividade é que faz a diferença fundamental no avanço do conhecimento, justamente pelo debate consistente, pelos contra-argumentos e pelo confronto sadio de idéias?
Me parece ilógico que a mÃdia queira se manter agarrada a “vida de aquário” a que se acostumou, sendo que agora já há outras opções para a população. Sinal dos tempos? Talvez. O que poderá ser do jornalismo cidadão daqui a 10 anos? Tenho a opinião de que a vida inteligente vai encontrar abrigo na Autoria Web – o negócio editorial do futuro, mais que na Cultura de TV ou na Cultura de Auditório.
Tampouco enxergo consistência em debates baseados em celebridades e cultura midiática. Simplesmente porque o timming audiovisual não permite o raciocÃnio apurado e, além do mais, na lógica das celebridades, raros são os que aceitam sacrificar a verdade do personagem (o que a audiência, ainda que não precise, quer ouvir) em função da verdade do ser humano, sem a máscara (o que a audiência, ainda que precise, pode não gostar de ouvir).
Espera-se muito da TV pública - esboçante mas promissora. Uma fusão da Radiobrás com a TVE, ao que tudo indica. Alternativa que, supostamente, começará a vigorar no Brasil, em dezembro próximo. Só não se sabe quanto tempo vai durar o Ãmpeto. Apresenta a fórmula da TV socio-educativa responsável, sem subsÃdios propagandÃsticos nem baixaria, só mesmo conteúdo de qualidade.
Espero que, de fato, abram-se espaços para a educomunicação e para as idéias avançadas, integrado com a formação de cidadania, e não que esteja surgindo mais um palco para o proselitismo (tele)polÃtico.
O Google não discrimina cor, raça e sexo e condição social, na hora de indexar conteúdo. Só isso já é uma importante lição democrática. Mas também é fato que a autoria ganha consistência quando é capaz de refletir sobre si mesma.
Me atrevo a escrever sobre mÃdia brasileira, mas não corro do escrutÃnio. É um convite sincero à reflexão sobre o Paradigma Hipólito. Que o Brasil é um gigante pela própria natureza, todo mundo sabe. Entretanto, a sonolência dos que, deitados em berço esplêndido, parecem ignorar o que têm nas mãos, me espanta.
Extrapolações desse tipo são questionáveis, lógico! Mas assumo os riscos. Afinal, do Brasil, sabem os brasileiros. E olhe lá!
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