Qual o Valor da Ciência sem a Filosofia?
Em matéria de Epistemologia, é preciso realmente Estômago e Mente Aberta para enfrentar certos debates que surgem. Vejamos algumas “pérolas” colhidas em um post no site de rerum natura, que se propõe a falar da Natureza das Coisas, conforme indica o subtÃtulo. 
Não me interessa em nada expor o nome de quem quer que seja (até porque se está na Internet, já está exposto mesmo). Nem estou eu aqui chamando ninguém de ignorante, mas trouxe o exemplo por ser didático. E porque acho que a Internet não resolve as necessidades de se enfrentar o real debate, cara a cara, argumento a argumento, com calma, e aprofundar nos limites do paradigma atual para que se possa avançar no conhecimento, a começar do objeto mais sofisticado, a Mente Humana, o agente cognitor. Vou citar apenas os trechos que acho mais emblemáticos da “luta insana” travada nos bastidores da ciência atual para, ao final, como sempre, tecer meus comentários
Estudo de Caso:
O post Consciência Sem Ciência (autor é Carlos Fiolhais, um FÃsico) Inicia o post comentando o livro “Revolução da Consciência”, de Francisco Di Biase e Richard Amoroso, como sendo um excerto de outro livro, mais parrudo, publicado em 2000. Com certo sarcasmo, defende que se trata de pseudo-ciência, citando pelo Ãndice GOSWAMI e SHELDRAKE, dois dos autores de ciência mais criticados que eu conheço, para em seguida, descer o sarrafo na Psicologia Transpessoal. Até aÃ, tratava-se da posição dele apenas…
Comment (autor Paulo, simpatizante da filosofia budista)
Cita dois vÃdeos de Alan Wallace, Ph.D. que, segundo as informações do próprio vÃdeo, estuda Budismo desde 1970 e vem trabalhando na integração da prática contemplativa budista com a ciência ocidental, a fim de fazer avançar os estudos da mente. Paulo também deixa claro que acha reducionista colocar pseudo-ciência e estudos sérios no mesmo saco, motivo pelo qual citou os vÃdeos como referência séria. Paulo também refere-se à 14º conferência Mind and Life, em Dharamsala, encontros interculturais anuais (e também bianuais) entre Dalai Lama e Cientistas Ocidentais. Este foi o único comment do Paulo, mas quis citar para mostrar o rumo que a discussão poderia ter seguido, se não entrassem no circuito os dois comentaristas abaixo…
Comment (autor Anônimo, crÃtico da Filosofia, interessado na praticidade)
Cita um texto, que não vem ao caso, para depois usar um argumento contra o que ele chama de “subversão da ciência”, ou seja, a introdução do observador na fenomenologia quântica.
Comment (autor JC, da área de Quântica)
Para mostrar uma escorregadela de Anônimo, argumenta que ele não sabe o que diz tanto quanto os autores da pseudo-ciência (post inicial) – “que deve resultar de uma profunda junção confusa entre ignorância e pretenciosismo”. E parte para explicar porque não é subversão da ciência. Em relação ao problema da consciência, afirma em seguida que “qualquer pessoa, com o mÃnimo de formação filosófica, percebe que não é um objecto de estudo que possa vir a ser completamente determinada no âmbito da ciência”.
Comment (autor Anônimo, crÃtico da Filosofia, interessado na praticidade)
Sobe o tom da resposta, dizendo que “Se lesse o link, teria evitado interpretar mal as minhas palavras. Por outro lado, a forma iletrada como redige o seu comentário só revela a profunda confusão que vai na sua cabeça”. Ainda anestesiado com a grosseria inicial, prossegue raivoso “Posto isto, deixe-me apenas dizer-lhe que se um hipopótamo está a observar um fenómeno, você, apesar de parecido, também deverá ver a mesma descrição do fenómeno”. Mais adiante, deixa clara sua posição positivista, “a de que o objecto da ciência deve ser independente do observador, por construção e por definição. Ao tentar integrar o observador de forma activa na descrição do fenómeno, estamos a fazer treta”. E, ao final do comment, diz que “A visão radicalmente experimentalista é a única coisa que financia a ciência, é a única coisa que faz sentido à ciência, é a definição de ciência.”
Comment (autor JC, da área de Quântica)
Novamente discorda de Anônimo, e em dose sarcástica desfere: “É incrÃvel que [...] exista ainda quem não tenha despertado do seu sono dogmático. O objecto de conhecimento empÃrico é sempre subjectivo. Qualquer aprendiz de filósofo lhe pode ensinar isso. Aliás, defender que o sujeito epistémico (o tal observador) não participa activamente na descrição (formal) do fenómeno é, no mÃnimo, um contra-senso. Vejo que o Anónimo falha por completo em perceber o problema da consciência na FÃsica Quântica”. Mais adiante, JC comenta igualmente subindo o tom, critica os disparates da “Visão radicalmente experimentalista como sendo o que dá sentido à Ciência”. E arremata com a paulada final: “Desculpe, afinal vejo que não só não percebe o problema da consciência na FÃsica Quântica, como tem também uma total ignorância por toda a epistemologia. Ou melhor, por toda a metafÃsica. Por favor, se não quer andar a fazer treta, não se meta nos fundamentos de qualquer ciência”.
Comment (autor Anônimo, crÃtico da Filosofia, interessado na praticidade)
Inicia sua reação assegurando que conhece a Mecânica Quântica, mas que seu conhecimento não o leva a dissertar “porque a interpretação começa a sair fora do âmbito que interessa, e o âmbito que interessa é poder aplicá-lo à realidade, e como tal, a realidade tem de ser tomada como exterior ao observador, sobre pena de, em caso contrário, não termos descrições fenomenológicas capazes de produzir resultados sobre uma realidade”. Neste ponto deixou clara sua visão utilitarista de ciência, visão prática, que já havia sinalizado anteriormente ao relacionar financiamento da ciência ao experimentalismo instrumental. Em seguida, Anônimo reforça sua visão a favor da praticidade argumentando que “quem utiliza a mecânica quântica não costuma se preocupar com essas questões interpretativas hard-core, pelo simples facto de que não levam a lado nenhum [...] perder tempo em teorias que não servem para nada”. Adiante, mais algumas pérolas: “possibilidade de a mecânica quântica poder vir a ser reformulada eliminando a necessidade de interpretações tão inquietantes”. A uma dessas inquietações ele chama, em seguida, de “efeito colateral”, ao argumentar que “A Mecânica Quântica não nasceu porque o Bohr, o Heisenberg e o Schrodinger andaram a ler Kant e acharam que deviam incluir o observador no sistema. Que o observador acabou por vir ligado ao sistema fÃsico, foi um efeito colateral”.
Comment (autor Anônimo, crÃtico da Filosofia, interessado na praticidade)
Anônimo prossegue com o que já virara um desabafo, pois era seu terceiro post seguido. Cita mais duas inquietações: A “Teoria do Caos”, que ignora variáveis fÃsicas mas cumpre seu papel, segundo ele, de ser prática e de ter resultados, apesar de não citar quais. A outra inquietação referida é sobre a “descrição de modelos de realidade”, que seria inquietante na medida em que rompessem com a dupla termodinâmica – mecânica quântica, supondo se pudesse modelar a realidade a partir de modelos não-atomistas que pudessem também, alternativamente, se casar com a termodinâmica, considerada por ele o fiel da balança e modelo de certeza cientÃfica.
Comment (autor JC, da área de Quântica)
JC novamente sobe o tom: “Podia ter isolado outro parágrafo qualquer do seu texto, que a conclusão seria a mesma: não sabe nada sobre o que está a tentar dizer. Nem em relação a Kant, nem em relação à Quântica (pode até saber as contas – eu também sei – mas não entende, certamente, nada delas). Enfim, mais um exemplo de quão acre é a mistura da ignorância com o pretenciosismo”. Em seguida, JC cita duas bibliografias, que, segundo ele, é extensa e recomenda ao outro “experimentar, para começar devagarinho, por ler…”. Haja sarcasmo!
Comment (autor Anônimo, crÃtico da Filosofia, interessado na praticidade)
Anônimo responde em tom mais alto ainda, que em matéria de “ser pretensioso, você (o outro) é imbatÃvel quanto a isso”. E sai-se com o argumento de que não vai ler porque não tem tempo…
Comment (autor JC, da área de Quântica)
JC mais uma vez alfineta: “tem tanta falta de tempo que nem tem tempo para crescer. Pobre coitado. Olhe, enfim, continue a frequentar – como tem tido tempo para o fazer – este estabelecimento de ensino”.
Comment (autor Anônimo, crÃtico da Filosofia, interessado na praticidade)
E Anônimo, provavelmente furioso, ainda se deu ao trabalho de responder, em duas etapas. Na primeira, incluiu um parágrafo inteiro de xingamentos e chamando mesmo para a briga, que eu não vou reproduzir aqui, apesar de ter guardado o print screen original da baixaria. E na segunda etapa, deve ter se acalmado porque deu uma resposta sensata que ao mesmo tempo é uma crÃtica inteligente. Reconhecendo-se vencido no debate-embate, pergunta ao opositor que ganhos ele teve em menosprezar o adversário, sem demonstrar nenhuma atitude construtiva. E fechou sua fala, até o momento sem resposta, concluindo que seu opositor não era “pessoa decente, porque não tem o mÃnimo trato”.
Ufa! E pensar que tudo isso aconteceu no intervalo de 24horas, de 11 de abril as 16h25, quando o post foi escrito, à 12 de abril, as 17h49. E de lá pra cá, mais nada. Mais curioso ainda é que o autor do post ficou mudo, só assistindo a briga que ele mesmo iniciou.
Depois do triste episódio escaneado, para não ficar apenas no lado ruim da coisa, trago aqui um contraponto, um rol de três sugestões de um dos co-autores do blog citado, o Desidério Murcho, Filósofo, em palestra no Porto:
1- Uma aprendizagem de confrontação de teorias que competem entre si (que é precisamente o oposto do que se ensina nas escolas e universidades de hoje).
2. Maior cooperação entre cientistas da vida e filósofos. Estaria subentendido nessa frase de Murcho uma referência ao famoso “Duas Culturas”, de C. P. SNOW ou “Três Culturas”, como defende o Prof. Ianni?
3. A Ciência vai deparar-se com problemas sobre a realidade e esses são o objeto de estudo da Filosofia. Alerta aos cientistas, para deixarem, por exemplo, de pensar que a metafÃsica é uma espécie de religião, de misticismo, de espiritismo, segundo as opiniões corriqueiras de cientistas ouvidos por ele.
Desvendar as fronteiras do conhecimento, é assunto que interessa a toda a humanidade, cientistas e não-cientistas.
Aos cientistas, como diria o Filósofo, a lição número um é combater em si mesmo o monoideÃsmo radical da visão materialista (uma ilusão paradoxal milenar, como FÃsicos agora bem o sabem), para avançar deste ponto e penetrar nas Questões em Aberto na Ciência. Aprendizagem se faz com postura pluralista, diria o Filósofo, atento à s questões subjetivas do conhecimento.
Já o cientista, cético profissional, diria ao Filósofo que muito da sua postura relativista é na verdade retórica e semântica, senão filosofice, o que não ajuda em nada na meta de se chegar a verdades universais, aceitas de uma maneira geral pela ciência como “a informação certa”, apesar de reconhecidamente temporária, cujas inquietantes aulas de epistemologia do Filósofo, pelo visto, não ajudariam a esclarecer. E ainda acrescentaria (o cientista), confiante na tradição de ciência a que se acostumou, que esse papo de pós-modernismo está a serviço mesmo da conspiração anti-cientÃfica, conforme Sokal e Bricmon supostamente denunciam.
Para quem ainda não se convenceu dessa problemática antiga, e deseja mais uma dose desse confronto, eis a versão portuguesa, no post Ainda a Guerra da Ciência. Por sua conta e risco…
Daà que eu pergunto: é possÃvel conciliar estas posições?
Muito me intrigou a relação de autores do de rerum natura, que citei inicialmente: um fÃsico, um filósofo, uma pedagoga, um matemático, uma quÃmica e dois biólogos. Seria isso um laboratório de Mente Aberta ou de Convivência PacÃfica? Ou ambos?
Pra fechar este post indigesto (reconheço), mas necessário (suponho), nada melhor que uma reflexão nada relax do argentino Jorge Luis Borges: “todo toca todos”




Ow “seo” Mello, você acha umas coisas por aà que eu nem imagino como…
Já que estou por aqui, e que abri um comentário, vamos ao que interessa (ou nem tanto). No meu caso, não sendo filósofo ou cientista utilitarista e nem entendendo uma conta que vá além do que a calculadora de 1 real é capaz de fazer, me contento em elaborar umas poucas perguntas. Quem sabe você me ajuda a encontrar respostas.
1. Como é que se pode conceber a realidade sem o observador, uma vez que é o observador, ou um conjunto deles, que a observa(m) e descreve(m)?
2. Nâo estaria a base de discussão sobre aqueles conceitos escolares de “ideal fÃsico”, do tipo: “um carro desloca-se em movimento retilÃneo uniforme em uma superfÃcie sem atrito”? Que tipo de realidade se estaria discutindo nesse ringue?
3. Quando é que “definiram” que a ciência que está aà é “definitiva”? Não é esta mesma que está rondando hà uns duzentos e poucos anos apenas? Se ela serviu para desancar conhecimentos passados, menos consistentes, por qual diacho não vai (ou vão) haver outro(s) modelo(s) que também a desanque(m), seja daqui cem ou mil anos?
4. De que adianta a defesa de “uma” ciência, se o melhor é usar o que há de melhor nela, ao mesmo tempo que se busca outra ainda melhor?
Depois das divagações de prazer, agora vai um comentário.
Só para aproveitar a parte comédia da coisa, vamos fazer uns milhares de cartazes com esta frase para pendurar nas paredes das principais universidades e faculdades?
Vai ficar bonito, em vermelho, fonte serifada e aspas grandes: “Que o observador acabou por vir ligado ao sistema fÃsico, foi um efeito colateral?.
Que tal? Sai bataratinho!
Comentário de Daniel Muniz — 24 April 2007 @ 12:49 am
Oi Daniel,
Cara, são boas perguntas, e podemos aprofundar. Vou deixá-las em aberto por hora, só pra ver se aparecem outros comentários…
Depois de mais de 6 horas ralando pra montar esse post, resumindo, buscando e selecionando o que linkar, acho que merecemos outras opiniões, né!
Alexandre
Comentário de Alexandre Mello — 24 April 2007 @ 1:28 am
Sou da mais sincera opini?o de que a ci?ncia, quando se afasta da filosofia, perde o prumo; e a filosofia se torna uma disciplina quase liter?ria. Ao longo dos, v? l?, 27 s?culos da hist?ria do pensamento filos?fico, ? interessante notar que os maiores nomes tanto da filosofia, quanto da ci?ncia, se dedicavam a ambas – sendo que, nos primeiros s?culos, os termos eram praticamente sin?nimos. Quando cientistas se tornam “adeptos da praticidade”, algo que dificilmente pode existir numa ci?ncia criativa, acabam rodando em c?rculos, como vemos em filmes lament?veis como aquele “What the bleep do we know”. A filosofia faz uma falta enorme; ali?s, andei falando sobre isso h? algumas semanas, a prop?sito da audi?ncia aberta do STF sobre as c?lulas-tronco.
Comentário de Paulo — 24 April 2007 @ 6:13 pm